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Novembro 16, 2009
a cerveja & eu
"um breve compêndio nada-lírico sobre minha relação tumultuada com a bebida"

eu não bebo mais cerveja. é a cerveja que me traga para dentro da garrafa. sou eu quem se esvai no fim do copo. sou aquele resto de espuma ali - o último gole azedo. enfim. existe esse ponto onde eu me acabo. um momento nada terno em que o álcool se apossa de mim.

de repente não há perigo o suficiente. não há vergonha ou risco. e eu vou fundo na autodepreciação. de acidentes homéricos com carrinho de compra no corredor do supermercado até longos protestos bêbados na saída de um grande festival. ofertas nada honrosas de ménage à trois e um membro que não se contenta em ficar resignado à solidão de sua underwear. não há baixaria a qual eu não me presto quando bêbabo.

facilmente me acomuno com outros fãs do copo. sou este grande camarada etílico. fico sensível aos dramas vividos por tantos pobres diabos. ouço com atenção cada nota do lamento ébrio de quem mal consegue pronunciar as palavras. e ofereço meu mais sincero abraço como consolo. este sou eu - o ombro amigo de quem a vida não suporta mais.

é. sou um canalha.

me alimento da tragédia de quem está numa pior. talvez isso massageie meu ego há muito dolorido - ver aquele arremedo de gente implorando por um copo de cachaça fiado. ou não. talvez eu compadeça da mesma desgraça. não sou eu a direccionar as velas da nau. eu não estou no comando - e sim ela - a tão estimada amiga fermentada.

deu branco.

é como a tal cegueira leitosa. me vou no piloto automático do caos. pouco sei do que se passou. das notas além do tom. é este improviso que tenho de coletar nos dias que sucedem a bebedeira. amigos e pessoas próximas vêm falar. os relatos são seguidos de risadas. e eu até enxergo coerência no que faço trêbado. mas sempre sobra um certo incômodo - uma costela quebrada a me dar pontadas.

penso & repenso.

será esta a vida que quero levar (?) não será hora de retomar o controle da situação (?) até quando o meu equivalente ébrio terá carta branca para 'atacar' (?) até quando a vida me irá suportar (?)(!)

não sei.

mas todos amanhecem menos seguros nos dias em que posso entornar o caldo dourado - vertendo o que há de pior em mim mundo afora.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:47:07 AM


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Novembro 3, 2009
pistas falsas

então tem essa melancolia - você sabe que tem. traduzida em versos e copos cheios. com pouco colarinho. com espuma de sobra. verdade é que melancolia tem até hora. ela sabe quando deve chegar e chega. vem se aprumando com a hora oportuna. vem devagar e toma posse - arma barraca e bandeira. territorialista toda.

eu primo pelo descaso.

faço pouco caso disso e daquilo. evito falar sobre. até que todas as peças estejam sobrepostas numa posição incômoda. e pesa. pesa sobre o corpo. pesa sobre o peito.

me muno de todo meu despeito e disfarço. desfaço a marra e transo um sorriso. olha só - eu tento mesmo dissimular o que vem de dentro. suprimir é a bola da vez. vamos lá. vista seu melhor sorriso - esse muxoxo não lhe cai bem. se nada lhe servir? sirva-se de um drink.

tem esse quê de vazio. ou não tem quê nem por quê. e vazio não é isso? vazio não é um ter sem ter?

tenho e não tenho.

ó glória.

é nessa hora que a melancolia vai a forra. e por mais que você grite 'foda' - nada te isola da tristeza que te espera.


ps: me pergunto 'por quê' ainda escrevo aqui. continuo a usar uma plataforma tão obsoleta. tão ausente de formatações interessantes. até o nome no navegador me acusa - blogger é antigo. tem essa foto desatualizada. tem esse olhor quase assustado. mas por que é mesmo que ainda despejo meias intimidades por aqui? e mais: por que me esmero em desconstruir minha escrita. cada vez mais fragmentado estou. 'por quê'. 'por quê'. 'por quê'.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 3:02:57 PM


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Outubro 1, 2009
sobre a mulher & outras cousas

declarei guerra ao sexo feminino. é verdade. vivo em um mundo de mulheres. elas me cobram no batente. dominam atenções na família. se sentem no pleno direito de descarregar frustrações no sexo oposto. e brigam. brigam com as outras xoxotas. disputam espaço neste grande rebuceteio.

'não - não corra'. 'não - não se esconda'. as forças opressoras da vagina estão encurralando meu pobre pintinho.

emancipo-me.

ao menos deveria. estes seres se julgam tão especiais. realmente acreditam que o tal buraquinho entre as pernas é a coisa mais valiosa da terra. mas não é. e adianto logo: o pau também tem sentimentos.

agora avalio minha vida sexual.

vejam só - repudio tanto isso. esqueçam aquele discurso de 'sou sensível pra te comer'. mas eu realmente sempre dei muito mais prazer do que recebi. não que seja injustiça. nenhuma pussy me ameaçou. nenhuma me apontou uma arma e proclamou um 'chupa aqui ou te estouro os miolos'. enfim. isso é só mais um dado estatístico em minha guerra absurda.

absurdo.

quem se rebelaria contra a xoxota? que homem hétero e são iria se glorificar de tal feito? 'não transo mais xoxota'. 'poutz'. nem presidiário vive só de bronha. mas estou cansado. aqui há um pênis reticente - triste. bolinhas murchas. queria poupá-lo disso tudo. vejam só o pobre - tão esquálido. oprimido e cabisbaixo.

agora penso com a cabeça de baixo.

a culpa não é do meu pau - a culpa é do meu pai. a vida toda ele me ensinou a cortejar as mulheres. fez com que eu as amasse mais que tudo. ele pôs a boceta em um altar e me apontou o santo graal. 'vá meu filho'. 'se embriague no doce sumo desses lábios'. eu era tão novo - despreparado. acontecia assim de forma corriqueira. falávamos de colégio. falávamos de time de futebol de salão. e falávamos sobre preliminares. como 'esquentar' uma dama. e então ele se deleitava daquilo. romantizava. plantou em mim essa semente de amor que perdura e me ataca agora. foda - papai - foda. maldita seja a foda que hoje me fode. nossa.

amor & ódio.

mas um ódio assim velado - destes que não se admite. e se admitido não é tão sério. mas há esta ponta de desapontamento. talvez me faltem os modos - mas também me falta uma grande mulher.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:54:42 AM


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Setembro 21, 2009
vamos falar sobre a vida - essa indigna

acabei de abrir a norteña. 1 litro de cerva. nada demais - será que consigo escrever?

que fique claro: estou bêbado.

fui até aquele bar. a mesma sujeira de sempre. as mesmas pessoas sujas de sempre. a tv engordurada. o gordinho que vive de cheirar pó - mora com a mãe aos 40. o coroa veado. o analfabeto. o negro mal encarado e quieto. belo bar - a cerveja aumentou.

estava dormindo na cama. chapado por demais. não tinha a menor força pra levantar - mas levantei. encarei a janela - pulei. sai pra rua trançando as pernas. no bar bebi - em pé no balcão. ajeitava o chapéu com cada lance desconcertante - gol sofrido. phoda.

a vida tem sido isso. uma porção de gols sofridos - nenhum marcado. futebol é essa parábola bonita. a gente discorre sobre isso pra falar de qualquer coisa. eu queria deixar de perder de goleada. meu coração é um goleiro sôfrego. eu não queria isso.

mas dispensei a garota. disse que nada queria. poxa. era sexo ao menos. em casa - com visita e tudo. ela era nova - é verdade. talvez 18 não seja a idade. se bem que rebolava bem - algumas rebolam já. merda. nessas condições eu não deveria negar companhia. mas me arrasto pra toca como um animal ferido - sempre.

gasto o dia me culpando. não gosto disso. mas me atiro coisas. me atiro os cabides e roupas. os pés da cama. atiro o que vejo no caminho. vai panela. vai tudo que vem na frente. porra. podia ter evitado tanto. mas não. estou bêbado - você sabe. pouco me custa escrever de forma limpa. mas há culpa. há culpa. deveria ter sido diferente.

que merda.

não queria me sentir assim. não queria ser esse cara que se lamenta por ter sido abandonado. o amor da minha vida me fodeu - essa é a verdade. deixe-me falar. ela era tudo. era uma dessas personagens arrebatadoras. parecia que seria até o fim. mas nunca é - deveria ser. morreria por ela. mataria por ela. estaria ao seu lado no inferno - foi o mais perto que cheguei do 'céu'.

cerveja boa. deveria beber mais.

parei de fumar. amanhã 21 dias - um recorde pessoal. drauzio e serra me venceram. a corja dos carecas broxas perdurou. então. foi isso. tem umas duas horas que esqueci que estava escrevendo. boa noite.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:04:59 AM


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Setembro 4, 2009
me vexo de não ter um dente podre.

bem que queria - mas não deu. nunca quebrei um dente brigando. tão pouco no fundo da piscina - o corpo submergindo e a água corando avermelhada. nunca sangrei tanto. não este sangue que se vê e me tem um gosto de ferro. esse não.

o sangue que falo escapa por uma fenda no peito. pinga devagar. é negro e lodoso. é morno e pesado - denso. me escapa também a fumaça. vai-se embora pela fenda sangue e tabaco. bobagem. vivo fácil sem os dois.

tenho uma cárie. na verdade era uma obturação - que caiu. caiu há anos e nunca fui no dentista. olho - e olho mesmo - o buraco crescendo no dente. às vezes dói uma dor fina. às vezes penso que dente é insensível. porra de dor. quero ter um dente podre.

queria.

quero outra vida - menos podre. o esforço é grande. envolve uma porção de nãos. um tanto de privação. calibrar excessos é privação? queria ser zen budista vegetariano rezando no alto do monte também. queria isso depois do dente podre. aí desisti dos dois - foi assim.

o que quero é que a fenda se feche - mas o peito não. quero me cortar um pouco menos. basta de tanto sangue. sou assassino arrependido disso tudo. perdão. clamo por perdão como quem chama a mamãezinha. 'mãe queria eu um dente podre. depois queria eu a salvação desse seu deus. depois queria eu descer da cruz. depois queria eu só um pouco de carinho. queria eu menos assim. me entende mãe?'

eu - que não fui um bom menino - desejei um dente podre. tenho essa panela no dente. e nada me aplaca. nada.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:24:40 PM


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Agosto 21, 2009
e depois do fim...

... encaro a folha em branco novamente. é um embate épico - clássico. uma reprise cansada - um velho western. os olhos serrados sobre a tira de papel. poeira soprando o silêncio do deserto e o ganido abafado dalgum lobo sôfrego.

duelamos então - eu e a celulose. me atiro sobre as fibras alvas. cravo-lhe unhas e dentes. palavras são pequenos kamikazes num céu de prosa e verso. me atacam os marimbondos sem temer por suas vidas. exaustivo. falta tinta - o sangue derramado (!) me sobram os trapos.

quanto mais posso repetir essa cena (?) ainda me cabe essa personagem que vaga com os dentes podres e o terno roto (?)

escrever é mesmo algo difícil. e este sempre será um de meus pequenos assuntos. 'decifra-me ou te devoro' eterno. mesmo abolindo uma série de coisas. desconstruindo. fragmentando. delirantemente. fantasma antigo - reprise desegradável.

acho que já escrevi de tudo. de manual de prevenção de incêndio para multinacional até convite para chá de mulheres ativas na sociedade bancado por vereadora. esse é o preço de se vender as palavras.

fujo do esconderijo almejando sol mais uma vez e nuvens cobrem o céu. lá dentro uma voz sobra um 'volta pro calabouço'. aceito resignado. chego junto à mesa fria - a cena que insiste. nos fitamos assim - eu & folha. dedos tateiam maquinalmente. 'ghost writer'. 'ghost writer'. 'ghost writer' (...)
Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:06:41 PM


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Junho 15, 2008
ATIVIDADES ENCERRADAS

Este blog funcionou de novembro de 2002 até junho de 2008. Não será deletado porque funciona como um arquivo virtual da minha produção pessoal de textos neste período. Abaixo você poderá ler os últimos 99 posts e ao lado você poderá navegar nos arquivos de cada mês destes mais de 5 anos. Divirta-se.

Fale com o autor através do e-mail leo32d@gmail.com

Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:07:10 PM


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Junho 13, 2008
.cianureto & outras pílulas diárias #3;

todo aquele enxoval encostado, alimentando as traças no fundo de um baú. os porta-retratos juntando poeira sobre a penteadeira. naftalina no roupeiro do guarda-roupa, não há nada nesse quarto que não cheire a passado. sentado na beira da cama ela pensa no dia derradeiro. os convidados na igreja não sabiam para onde olhar, não havia o que se dizer. a jovem noiva no altar se desfazendo em lágrimas, borrando toda a maquiagem. emporcalhava as mãos da tinta escura do seu rosto e as limpava no vestido branco. tão logo se deu o fim do casório, já vestia a noiva abandonada o luto negro do resto de seus dias.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:33:16 AM


.atrapalhe o autor:
Junho 11, 2008
.cianureto & outras pílulas diárias #2;

ela bem que tenta, mas não consegue esconder o esmalte carcomido das unhas, a ansiedade inquieta dos dedos magros no banco de cimento. levanta, acende um cigarro. caminha até a esquina e volta. conta uma, duas horas. duas horas e alguns minutos ali, guardada na beira da pista. ajeita o short jeans colado sem pudor. acende mais um cigarro, marlboro vermelho. pensa na filha de 11 anos. olha o relógio, confere as horas. juntando dinheiro ela poderia mudar, morar com a filha. os dedos estão quase amarelos, o esmalte descascado, ruído. um carro pára, ela esconde as mãos. O motorista destrava a porta e ela pensa na filha.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:10:08 PM


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Junho 9, 2008
.cianureto & outras pílulas diárias #1;

lá vai a moça feia com sua quase-beleza típica, vulgar. agarrada na mão do moço, corre pra atravessar a rua. segura a mão suada e aperta os passos do tamanco. tac tac tac fora da faixa de pedestres. olha de soslaio pro lado segurando aquela fibra calejada que chamam de mão. puxa aquele trapo que chamam de homem. o homem segue o par de pernas como que perdido, aturdido naquela perdição. atravessam a rua apressados em direção à igreja.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 2:56:21 PM


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Maio 15, 2008
.no engarrafamento;

19:02

O grande relógio analógico anuncia absorventes íntimos. Ao redor, trânsito congestionado, os vidros dos carros fechados, selados. Uma diversidade de pessoas e modelos de veículos. Novos, seminovos – usados. A moça do anúncio de tampão usa uma calça legging branca e empina sua bunda de academia de ginástica para a máquina fotográfica. ‘Não marca’ diz o luminoso.

19:03

As placas brancas rangem no espaço reduzido em que se locomovem e o relógio analógico determina 16° centígrados. São dezenove horas e três minutos, o tráfego não anda. Uma mulher boceja no banco do motorista, um homem fuma no ar condicionado de um carro japonês do ano. Crianças cochilam na van escolar. Na porta do cursinho a moçada bate papo, o sinal toca e ninguém dá atenção. No hot-dog, um motoboy mastiga e quase se engasga ao assoviar para uma morena que fecha a cara e passos a diante sorri, dando uma rápida olhadela pro rapaz que limpa a mostarda do canto da boca.

19:05

O sinal abre e o primeiro carro da fila não anda. É certeza que o motorista se perdeu nas curvas do bumbum que estampa o relógio de rua. Buzinas gritam e o carro arranca num tranco, para quase estancar logo em seguida. Uma multidão no ponto de ônibus torce pra fila andar. Ladeira abaixo um coletivo lotado tenta alcançar a próxima parada. A marcha mecânica segue lenta.

19:09

Um sujeito impaciente com o braço para fora do carro segurando um cigarro de marca paraguaia começa a gesticular. Ele tenta travar uma discussão com um outro motorista que mal dá bola. O motorista que não dá bola, por sua vez, gira os botões do rádio. Procura em vão escapar da Voz do Brasil. Muda de opção e volta para o CD do Queen, A Night at The Opera. Batucando o volante, o homem de pouco mais de quarenta faz as vezes de um Roger Taylor na hora do rush.

19:11

No ponto de ônibus uma moça desatenta levanta a blusa e mira o próprio umbigo. O passageiro de um carro logo adiante percebe a manobra e se interessa. A moça, que é loira, abaixa a blusa e se percebe sendo reparada. Sorri desconcertada. Fica claro que ela, que não se acha tão atraente, sorri sem conseguir disfarçar estar contente. O rapaz gostou da barriguinha e do umbigo – e tratou de conferir o resto. Seu amigo, o motorista do veículo, faz um comentário jocoso sobre a bunda da modelo do anúncio de absorventes e o distrai. O passageiro olha de volta o ponto de ônibus e vê sua paquera dar o braço para o coletivo, que lentamente se põe entre ela e seu desconhecido admirador.

19:12

A moça sobe no ônibus lotado e procura se pôr a janela. Consegue uma brecha e procura pelo rapaz de cabelos castanhos e barba por fazer. O sinal já abriu. Um senhor um tanto gordo esbarra no seu corpo, ela mal consegue se apoiar e quase cai sobre um passageiro sentado. O sinal abre, o motorista acelera. ‘Agora parece que vai andar’, um sujeito impaciente comenta. ‘Deus queira’, um outro sussurra. A moça ainda tem o olhar perdido lá fora enquanto recobra o equilíbrio. ‘É. Parece que agora vai’. De súbito a longa fila de automóveis flui. São dezessete horas e doze minutos. O relógio analógico determina 16° graus centígrados e a moça com bunda de academia sorri como nunca na propaganda de OB.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:07:22 PM


.atrapalhe o autor:
Maio 13, 2008
.a título de esclarecimento;

Se eu fosse tentar descrever o esforço com que escrevo estas palavras, eu não conseguiria. Afinal, se uma simples linha me é dura, imagine então um parágrafo inteiro. Ou uma folha toda. Nossa! Impraticável. Uma nova amiga me diz q sou frouxo porque me vexo de decorar estas páginas como bem gostaria. Ela está certa e, por hora, não vou mudar. I can’t do it, baby. Sorry.

Vida em Campinas? Completamente censurada. Sexo, drogas e rock’n roll completamente suprimidos. Como é mesmo que os psicólogos gostam de dizer? Sublimar? Recalcar? Sei lá, deve ser por aí. Não passei uma semana das melhores. E outra: não me gusta fazer desse blog um simples-por-mais-honesto-que-seja-(ou não)-diário.

Prefiro me guardar do que atirar desesperado contra as paredes brancas da minha imaginação. Preservar a verve, manja? Se não se pode fazer algo realmente bom, ou que no mínimo satisfaça um momentâneo desejo que seja, não faça. Tenha respeito pela sua obra até o presente momento. Minha obra não é lá essas coisas. Mas se todo dia eu abaixasse as calças e cagasse um texto aqui imagine a latrina que não estaria essa página. Desagrado tremendo.

Tenho coisas mais interessantes para fazer do que escrever. Lá vai minha lista:

Comprar uma boa cerveja artesanal tipo red ale, estamos no inverno, a cerveja pilsen que espere o tempo esquentar;

Fumar um pouco menos, mas não abandonar meu companheiro L.S. red (não vou fazer propaganda de cigarro e você deve saber qual é);

Fazer uma campanha vitoriosa com o Sevilla, meu novo time no Fifa 08. Você não esperava que eu fosse beber e fumar e não ser viciado em jogo, né?;

Tomar 2 ou 3 garrafas de Chapinha por semana, sem gelo. O velho suco gummy de 6 reais (suco de uva + álcool de posto) faz bem ao coração, dizem os médicos;

Lembrar o Maurício de castrar a Margot. Gatos são animais incríveis. Em um determinado momento da vida, eles simplesmente descobrem que tem super poderes e começam a testá-los, saltando obstáculos e subindo no telhado...

É isso pessoal. Vou me divertir.



Escritos de um desconhecido autor publicado às 6:00:01 PM


.atrapalhe o autor:
Abril 28, 2008
.eu acho que;

quando a palavra não cabe
é melhor se calar
e fica assim por dizer
tudo o que não pode ser dito

Escritos de um desconhecido autor publicado às 6:55:45 PM


.atrapalhe o autor:
Abril 1, 2008
.3x4;

Os retratos de 3x4 costumam ser implacáveis – para não dizer cruéis – ao capturar a imagem de uma pessoa. Geralmente, aquela pequena foto rouba uma fração de segundos de um dia perdido e a sustenta durante anos. Se você estava afobado, entediado, frustrado, indiferente, intangível ou desfocado, não importa. A 3x4 é um registro durável, quase permanente na resistência do papel.

Hoje no almoço me veio esse vislumbre de que este espaço seria como uma série de retratos três por quatro. Um fotolito destes que, multiplicado na revelação, é divido em várias partes iguais. Seja por uma tesoura cega ou por uma grande lâmina de aço sem corte. Não há variação entre os quadros, a não ser por pequenos problemas na revelação - um contraste de luz e cor entre uma ou outra foto - depende da perícia do olho que vê.

Me tenho como um lambe-lambe na calçada – lá vem a imagem lúdica pré-romantizada, porém não dêem chance ao engano. Assisto ao movimento, vejo a sujeira das ruas e ouço os pombos arrulhar por todo o dia. Um transeunte pára e pede uma foto. Identidade, habilitação, carteira de estudante (...). Meu trabalho é roubar a alma destes pobres diabos, embalsamá-las e exibi-las. Mas me parece que a clientela é escassa. Com o advento das câmeras digitais, do apagar e refazer fotos, ficou mais fácil trapacear a sorte. O que interessa aqui é o analógico. A engrenagem que pede óleo. As válvulas que demoram a esquentar.

A única figura que me vem é um rapaz um pouco alto, quase gordo, cabelos desgrenhados e andar engraçado – dez para as duas. Ele vem quase todos os dias e me pede uma foto. Às vezes chega bêbado, outras vezes chapado. Às vezes tem dinheiro e paga e em outras, sem cerimônia, deixa no prego. Tem dias que vem arrumado, cheira à pós-barba. Em outros vem fumando, de bermuda e chinelo de dedo, os cabelos rebeldes. Diz que mora longe e sozinho. Fala com ar de tranqüilidade, se bem que esconde um tremor inquieto nos olhos, lá dentro eles dizem algo mais – ou escondem pormenores.

Tudo o que faço é registrar esse quase-segundo em que, sentado, ele repousa no banco e se permite estar vulnerável diante da objetiva. Por mais que seus dias pertençam a um universo maior, o que me interessa é esse recorte mínimo. Esse libelo de sua realidade. Não posso mais que isso, mais que isso não é meu trabalho. Logo em seguida ele se levanta e vai embora. Paga a revelação, mas nunca leva as fotos.

Do que vai embora eu abstraio, me atenho ao rapaz do três por quatro. Olho e comparo as fotos, construo um painel destes pequenos pedaços do quotidiano. Não procuro sentidos. Não, este não é meu trabalho. Apenas uno as partes e exponho aos olhos (des)interessados.


Escritos de um desconhecido autor publicado às 3:23:10 PM


.atrapalhe o autor:
Março 28, 2008
.ordinário diário;

Monólogo do Desejo

- diga o que quer
sem rodeios, o que quiser
eu improviso e fim
eu tiro de mim
posso até fingir
que eu sou alguém melhor (e)
posso ser pior
se isso te faz rir
a vida vai seguir
sem ninguém notar
que quem está aqui
não deveria estar
prum dia de sol eu sou a chuva
que insite em te molhar
sou a mão que te guia
quando você não quer se encontrar (e)
eu acho que você não quer
mas (se você insiste)
eu posso inventar
eu quero ensaiar
um lado meu feliz


(terceira canção composta para o álbum ficcional 'as canções do exílio'. em breve no myspace)
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:37:26 PM


.atrapalhe o autor:
Março 24, 2008
.ordinário diário;

Mais uma vez desanimou...............

Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:39:13 PM


.atrapalhe o autor:
Março 18, 2008
.ordinário diário;

Há dois dias do início do equinócio eu acordo para trabalhar e travo uma dura batalha com o chuveiro. Em quarenta e oito horas estaremos no outono, os termômetros já ameaçam a cidade com temperaturas abaixo de vinte graus – ontem, lá pelas sete da noite, li dezesseis graus no relógio de uma avenida. Pode não parecer muito, mas é pra quem não tem blusas e um cobertor que o valha.

Pois bem, são quinze para as oito da manhã e o chuveiro não quer esquentar. Maldição. Como que tentando descobrir a combinação de um cofre, eu giro a torneira lentamente, tentando conter a pressão da água milímetro por milímetro. ‘Vai queridinha, esquenta essa b*c*t*’. Nada. Um banho morno e olhe lá.

Por que será que morar sozinho dá tanta preguiça? Adiei a ida ao supermercado durante semanas. Agora é inevitável, só me resta um sabonete e um rolo de papel higiênico. Como é que eu como? Como fora ou não como. Tomo um café – café não falta. Tem chovido muito e lavar roupa é um suplício. Agora acabou o sabão em pó e faz duas semanas que não lavo roupas. Já estou repetindo as usadas e lavando as cuecas no banho. Dureza. Vou ter mesmo que ir à droga do supermercado. Anota aí a minha lista: sabonete, papel higiênico, sabão em pó...

Limpar o quarto também é difícil. Mas por um problema de proporções cósmicas: a pá de lixo de casa sumiu. Assim, sem mais nem menos mesmo. Meu quarto enche de pó e eu sou alérgico. Imagine um cara de um metro e oitenta e cinco e noventa quilos despejando diariamente milhares de células mortas em um cubículo de um pouco mais de um metro de largura. Eu pego a vassoura e varro o quarto todo, mas adivinha? Não tem como tirar a poeira de dentro dele sem a pá. Aí eu passo um pano molhado e tento dar uma maquiada, mas é difícil.

Eu tenho que ir ao supermercado, lavar roupa e limpar o quarto. De preferência até amanhã, porque pretendo viajar amanhã à noite. Mas se viajo amanhã a noite só tenho hoje realmente, mas hoje não sei a que horas saio do trabalho e ainda tenho que passar na rodoviária. Ou seja, deixa pra semana que vem.

Eu também não sei por que dá tanta preguiça morar sozinho...
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:01:37 PM


.atrapalhe o autor:
Março 13, 2008
.ordinário diário;

A minha existência é conduzida por uma simples filosofia não-intuitiva: eu não espero nada das pessoas. Já correu algum tempo desde que me decepcionei com alguém pela última vez. Cada mês passado, desde então, é motivo de alegria. É ânimo em minhas veias.

Moro sozinho, milhares de quilômetros de distância de minha família e amigos e mulher – minha antiga vida. Não tenho telefone. Não tenho comprovante de endereço, não tenho internet em casa. Tenho uma mala de roupas, um computador, cinqüenta CDs previamente selecionados de minha coleção, uns quinze livros, vinte filmes em DVD e duas guitarras. Acomodo tudo isso em um quarto minúsculo. Essa é toda minha vida agora e, acredite, acho que é muita coisa. Está ficando cada vez mais difícil arrumar as coisas e sumir.

Saí de casa com uma mala e uma guitarra, cem reais no bolso, uma passagem de avião e um beijo de boa sorte. Aportei em São Paulo e me virei, dei um jeito. Me endividei aqui e ali pra poder comer e me distrair no primeiro mês, não dei um telefonema pra casa pedindo ajuda. Nas poucas vezes que falava com minha família dizia estar tudo bem. Tinha emprego garantido. Gosto de garantias, não dou tiro no escuro. Passei uns meses apertados até quitar minhas dividas, mas depois o trem entrou nos trilhos e seguiu novamente.

Não estou tentando a sorte – não acredito em sorte. Estou simplesmente levando a vida que posso. Minha vida - só minha. Em Maceió essa independência tardaria. Se Campinas foi o lugar que me ofereceu a oportunidade de dar meus primeiros passos sozinho - ótimo. Poderia ser qualquer outro lugar com o mínimo de estrutura pra isto. Calhou de ser aqui na sombra da capital financeira e cultural do país - melhor ainda.

Ainda há muito para ser feito, tenho um punhado de planos, calculo tudo meticulosamente. Persevero e as coisas acontecem todas em seu tempo. Não fico mais triste aos domingos e sempre que há dúvida me apego à certeza de que esta é a vida que posso levar sem dever nada a ninguém, sem ter de esperar algo dos outros. Só e completamente só. E quer saber? Não poderia ser melhor. E sim, existem pessoas que ainda esperam algo de mim. Para elas dou a única resposta que me cabe: tudo em seu devido tempo e espaço.

Tem gente que escreve, faz poesia ou prosa. Tem gente que desenha, pinta, grafita. Tem gente que fotografa, filma e registra. Gente que dança, interpreta. Meu grande trunfo é a música. Tem gente que tem milhares de CDs, que escreve bem sobre música, que diz que a música é parte indissociável de sua vida. Gente que daria tudo pra fazer música como eu, pra cantar como eu. Mas não faz e não canta e não vive essa relação amalgamada com o som.

Clique aqui pra ouvir minhas poucas verdades.


Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:10:46 PM


.atrapalhe o autor:
Março 10, 2008
.ordinário diário;

‘E tá tudo igual e tudo mundo anda desse jeito – sempre o mesmo jeito – e só da vontade de sumir’. Dá mesmo. Há dias em que daria tudo por uma dessas pílulas-solução quaisquer. Um remédio que fosse, pra insatisfação e o amargor que toma conta do céu da boca. Um comprimido que desse aos dentes outra função que não a de amarelar, apodrecer. Melancholia. Não é falta de amor. Não é falta de dinheiro. Tampouco falta de diversão. ‘Eu sou uma pessoa vazia’ – devo ser mesmo.

Tenho andando pelas madrugadas sujas do centro campineiro, local restrito às almas perdidas - leiam-se gays, mendigos, traficantes e pessoas carentes de juízo. Sempre acompanhado de uma garrafa de vinho quente e barato, um cigarro, as nuvens escuras que persistem nessa época e o Franklin. O Franklin está aqui tal qual a minha persona – completamente sozinho. Me divirto dele. Seja em suas investidas noturnas com as moças locais, no auge de sua alcaholic ou quando briga com uma punk que o ameaça com uma garrafa. Ou quando ele não se conforma com a opção sexual dúbia de alguma gatinha.

Ora essa. Eu me divirto. Sim senhor! Mas não é suficiente.

Tenho pra mim – há algum tempo – que o mundo todo não seria suficiente pro meu coração. Que a satisfação não vem assim, não é essa ciência exata que diz que a soma de vários fatores positivos resultam na felicidade. (Pausa para um cigarro). Pronto. A vida segue assim como um cigarro, alívio momentâneo pra uma porção de anseios que não irão se traduzir em acontecimentos plenos. Tudo que há de vir, virá do seu jeito particular, o que pra muitos significa uma pequena parcela do que era desejado e algumas surpresas desagradáveis. Pelo menos pra mim é assim. Pra você não é?

Sempre tem essa pontinha de desapontamento. Esse olhar de ‘ah...’. Talvez a arte roube um pouco da nossa alma. Ou a alma toda. Ou a alma é uma coisa constituída de pequenos pedaços roubados da arte. Quanta conjectura. Eu me vejo tão apático, só me expresso através de algum empenho artístico. Empunho a guitarra, seis meses assombrado por duas melodias inacabadas. Dois esboços, práticas distintas de uma quantidade de técnica e um outro tanto de inspiração, de algo que vem não sei bem de onde. Aos poucos a coisa toma forma, encorpa e me escapole. Vai pro mundo e me deixa aqui de novo com esse olhar de ‘ah...’.

Eu não falo e fujo e dissimulo. Eu sento e toco e escrevo. Eu sinto o vazio, o buraco, o avesso. Eu acho graça da vida e a vida me reprova. O vento caçoa de mim e o vagabundo que fala sozinho no centro me manda embora, diz preu sumir da frente dele. Na sua loucura diz que não me conhece, que todos as pessoas que conhece são sim assassinas e pede pra ser deixado em paz, com seu paletó azul marinho de linho amarrotado, sem gravata, sentado no meio fio fumando um cigarro igualmente vagabundo de procedência obscura. Bendito. Finalmente alguém me trata com lucidez.

É. Ainda corre sangue nestas veias, quer pagar pra ver? As portas sujas do mundo estão abertas e o coração vadio é a serventia da casa.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:48:30 PM


.atrapalhe o autor:
Março 4, 2008
.ordinário diário;

Dois anos com o coração no limbo, criando limo de tanto esperar. Estava lá meu peito tal qual uma pedra escorregadia na beira do riacho. A correnteza não a levava e a margem não era nem um pouco cômoda. Metaforazinha de meia tigela pra descrever minha espera e indecisão. Dei alguns passos à frente, conheci pessoas. Dei alguns passos para trás, recuando com medo ou sem tara – deixei pessoas. É difícil magoar alguém, mas sim, a gente magoa.

Andei feito o tal malandro, caminhando nas pontas dos pés como quem pisa nos corações. Estava mesmo maltratando o meu próprio e o de quem eu só quero o bem. Que fiasco. Dois anos me fazendo de algo que eu não sou. Não lobo em pele de cordeiro. Me travesti de idiota e idiota eu fui. É difícil ser sincero. Tem tempo que abrir o coração já não cabe nesse espaço – em espaço algum.

Patético é esse choro contido/bandido. Sinto que tem uma tempestade pra desabar, uma torrente de lágrimas pra escapar aqui de dentro. Mas não sai, não escapa uma lágrima sequer. Sou esse assassino, um psicopata que não consegue se arrepender, permanecendo frio em relação aos meus atos. A quem eu tento enganar? Estou julgado e culpado e condenado atrás dessas grades.

Mas as coisas mudam. Hão de mudar. Quero essa liberdade, preciso viver agora o que tem de ser vivido agora e o depois – o depois é distante e incerto, essa armadilha (a)temporal – o depois só cabe a um desses deuses que tudo vêem e tudo sabem. Ao engano e o desengano.

Cansei da culpa e de satisfações. De discussões intermináveis que terminam por acertar alvos combalidos da forma mais cruel e insensata. As relações amorosas se tornam esse amontoado de coisas – uma sala escura e bagunçada, topada de entulhos. E não precisa ser assim (não devia), não há mais de ser assim (não dá).

Estou longe e não são os quilômetros. Estou perto e não é apenas pele. Não mais dualidade. Não mais indecisão e coração ao meio. Eu vou tentar o outro jeito. Assim simples eu escolho o inteiro.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:54:55 PM


.atrapalhe o autor:
Fevereiro 29, 2008
.curta crônica campineira;

Após os seis meses, aceno com uma afirmação desconcertada: não conheço esta cidade. Conto os quarteirões do meu domínio. Observo onde piso e sinto o relevo da calçada, tateando com a sola desgastada dos tênis como que memorizando cada fissura nas pedras. Moro na região central e não moraria em outro lugar em cidade alguma onde não houvesse mar.

O atrito da borracha dos pneus e das solas dos sapatos é o oxigênio que bombeia os pulmões apressados dessa cidade. Sinto um quê de ressentimento nisso tudo. A ‘capital do interior’ copia o que há de pior no pico lhe faz sombra. Os habitantes daqui não se contentam em ser paulistas. Com um pé no barro e outro na brita do asfalto, reclamam a alcunha de paulistanos. Alimentam um comportamento frio e se entregam a agressões no trânsito mal resolvido – como se a cidade fosse maior do que é.

Me acostumei com as ruas sujas, os canteiros mal cuidados. Com o canal que corta avenidas e as praças escurecidas por árvores velhas. Vejo aconchego nos prédios históricos e na sacada de casa me perco a observar o cume dos edifícios. Compro algo pra beber e me acomodo na quina do parapeito no andar superior do sobrado. Me deixo ali perdido a fumar e observar o movimento. Com os fones de ouvido abstraio o tráfego e intercalo um gole com uma tragada.

Sentado na mureta, os pés juntos, reproduzo um movimento de meu Pai. Penso que sai de casa e que agora, de alguma forma, ocupo o seu lugar. Talvez seja mesmo esse o papel dos filhos, ocupar o lugar dos pais no mundo. Cá estou eu tentando alguma sorte, fumando como meu Pai, os pés tortos sempre juntos, o corpo sobre o parapeito sem temer a altura – mesmo quando ébrio e só.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:21:11 PM


.atrapalhe o autor:
Fevereiro 27, 2008
.3° no singular;

Quando não há prosa ou poesia, vai no palavrão mesmo. Sem cuspe e com pressa.

Ele sabe da falta de sorte. Até faz que não é com ele, desvia o olhar, faz que fala com o vento, se vexa todo disso. Tem mania mesmo de falar sozinho, é normal – para ele, os outros riem desse cacoete. Parece até que não lhe faz falta companhia pelo tanto que se empolga com a própria língua.

Não ter sorte em filas deve ser algo de que muitas pessoas reclamam. Ele já não reclama mais. No supermercado sempre escolhe o caixa que tem apenas um cliente, e este é sempre o que mais demora. No açougue vê o correr das horas de descanso atrás de um senhor de pouca pompa que compra a loja toda. Quando chega sua vez, pede meio quilo de carne moída e é atendido em dez segundos – isto após ter esperado durante vinte minutos. Em dado momento até se viu o balconista lhe desviar o olhar. Foi quando um idoso furou a fila. Tentou se chatear, mas lembrou que os velhos já esperaram tanto nessa vida... Relevou.

Na fila do ônibus – é, ele agora vai ao trabalho de ônibus – não se sabe se por educação ou desatenção ele deixa algumas pessoas passarem na sua frente. Pronto, lá se foram todos os lugares com vista. Se faz de desentendido, não quis ser mais um afobado na porta do buzão, agora agüenta o corredor sem ter direito pra onde olhar, além de ter de suportar um número incontável de esbarrões.

No trabalho a hora do almoço é sagrada. Termina a refeição e espera a fila do caixa diminuir pra pagar o self service. Na hora de pagar, o cartão-ticket-refeição briga com a máquina da Redecard por uns minutos e a espera anterior já vira prejuízo. É religioso, sagrado como o almoço, o momento em que a máquina de cartão demora pra cuspir o comprovante de pagamento. O alívio vem na forma do bom companheiro Lucky Strike embaixo dalguma sombra de pé-de-pau.

Joga fumaça pra cima, aproveita e bisbilhota as nuvens deslizando o cinza sobre o azul intenso do verão. Sabe da pancada e aperta o passo. A tarde toda chove. A noite toda chove. Pensa na falta de sorte, e se considera algo sortudo mesmo sem encontrar motivo. E fecha os olhos. E dorme. E tem vontade de acordar pra brigar com vizinho que copula no andar de cima. Mas não, dorme.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:43:23 PM


.atrapalhe o autor:
Fevereiro 21, 2008
.3º no singular;

Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip! Bip-bip!

As sete e trinta e cinco o relógio desperta e toca durante trinta segundos. As sete e trinca e cinco e quatro segundos os olhos d’ele hesitam, o corpo tem uma imensa preguiça. Mesmo assim ele senta na cama e apanha o relógio, apertando o botão que faz cessar o bip-bip e que às vezes emperra causando irritação. Em outras ele erra o botão e desconfigura o relógio digital a fim de dar cabo da onomatopéia chata.

Ao levantar da cama, na estreiteza do quarto, seu corpo sem reflexo contorna os móveis cambaleando. Não raro uma topada com o pé da cama age como um choque eficiente espantando o sono. ”Imbecil”, pensa consigo mesmo, sentindo o dedão latejar, enquanto tira o shampoo e o sabonete do armário.

No banheiro, a duração do banho varia da quantidade de sono e da disposição para um exercício rápido de auto-satisfação. Ou mesmo da pressa da hora perdida – às vezes nem o bip-bip irritante é suficiente. Ele particularmente odeia ver o espelho embaçado após o banho, e odeia mais ainda quando passa a mão no espelho e a visibilidade piora.

Os movimentos para pentear o cabelo já estão internalizados e não carecem do espelho embaçado sem utilidade. A cabeça ainda não começou a funcionar direito, mas o penteado está quase impecável. Enquanto desarma o cadeado do portão, ele separa o primeiro cigarro do dia e acomoda os headphones nos ouvidos. O movimento na calçada e no tráfego é intenso. Transeuntes se dirigem ao ponto de ônibus há vinte metros dali com alguma pressa. Os ônibus formam filas, as pessoas se espremem feito gado nas portas automáticas para não se atrasar. Ele observa isso com calculado desdém e se põe a andar na direção oposta à confusão.

Faz sol e os fones do mp3 player cuidam da trilha sonora. Músicas para manhãs ensolaradas e pra aquelas em que o céu nublado ameaça desabar. Nos dias em que sai de casa com o passo apressado sob a chuva ele não usa headphones.

Entre uma baforada e outra ele se mistura entre as personagens da calçada e caminha assim, sem nada de especial, desprendendo fumaça e um olhar disperso de quem ainda tem sono.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:41:04 PM


.atrapalhe o autor:
Fevereiro 8, 2008
.ordinário diário;

Esse restinho de tarde é a sobra da semana, o pouco tempo que tenho para escrever com alguma calma. Não que haja assunto, ou que assunto seja necessário. Não. Nunca foi meu objetivo escrever sobre algo. Para desenrolar um tema é preciso de muito conhecimento de causa e conseqüência, o que abre um espaço sem tamanho para conjecturas e críticas. Enfim, uma parada dura.

Eu to falando é desse resquício de dia. Do céu azulzinho e do Wilco no headphone. Nessa horinha que me sobra, que antecipa o descanso do final de semana, existe um pingo de esperança. Um sentimento de que algo pode dar certo. Mas não cabe a mim escrever sobre esse algo. Eu não teria tanta propriedade assim e estaria abrindo espaço para intercessões, acabaria por desfazer esse pingo de coisa boa.

Às vezes a vida precisa de um pouco de calma e simplicidade. Eu me sinto um sujeito complicado, amarrado. Um dia minha vida começou a andar e eu fui acompanhando. Não me dei conta de que, ao invés de retirar as pedras do caminho eu estava as incorporando. Passei a carregá-las comigo. Me apeguei ao peso das coisas. Fui, eu mesmo, me tornando uma pedra. Um massa incalculável de situações comprimidas em pele, osso, alguma carne e muita gordura.

Sendo eu este homem de pedra me fechei nesta confusão de pequenos furações engaiolados. Algumas pessoas se arriscaram a transpor minha pele de rocha e cada qual pagou o preço pelo tamanho da sua ousadia ou inexperiência. Em dados momentos fui cruel. Em outros fui a indiferença em seu estado físico e inerte. Procurei manter a aparente passividade, enquanto que tentava organizar a ventania e a tempestade que se passava aqui dentro.

Tempo se passou. Eu mudei. Mudei geograficamente. Fiz as malas para Campinas. Algumas pedras eu atirei de cima do avião, outras eu atirei no lago Taquaral. Algumas ainda restam e volta e meia me atiram e me acertam em cheio. Mas não agora. Não nessa minha sobra de tarde. Agora eu carrego um sorriso sem porquê no rosto e lá dentro um pingo de esperança me diz que as coisas irão se arranjar. E que será de um modo imprevisível, envolto em mistério. Até lá eu fico com essa horinha última de sexta a tarde só pra mim, o homem de pedra.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:41:47 PM


.atrapalhe o autor:
Fevereiro 6, 2008
.ordinário diário;

.a obra;



.a peste;



.o velho;



Vejam o filme, esqueçam o texto.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:07:50 PM


.atrapalhe o autor:
Janeiro 25, 2008
.ordinário diário;

A câmera surge de repente. Não reparo bem de onde. Talvez ela tenha escapado de uma das portas do armário, ou estava à espreita no banheiro, esperando que alguém virasse o trinco para escapar. Não vi, não reparei. A câmera apenas surgiu na sala de criação, correndo em trilhos imaginários ao redor das estações de trabalho à cata de um ângulo inusitado.

A câmera deve ter me captado aqui, sentado, esparramado na cadeira sem encontrar posição cômoda. Reparou que eu olhava obliquo a folha virtual em branco e se interessou disto. Me saiu por entre as pernas de surpresa e armou um close-up do meu rosto, dando a devida atenção para meu olhar vago. A objetiva não se interessou das minhas narinas e seus pequenos pelos, mas estas atrapalham a captação. A lente desiste de mim. Se cansa e some momentaneamente – aposto comigo que ela espera o tempo passar para ter um maior aproveitamento da luz do dia, conforme o sol se move e se alinha ao horizonte que forra a janela.

Agora sim. A câmera então sobe por de trás do monitor e me flagra mais uma vez inerte, as costelas quase estalando, pressionadas pelo peso do corpo torto na cadeira. Penso comigo ‘preciso escrever’. ‘Penso’. Os dedos não respondem. E não haveria porque responder. A cabeça não projeta uma idéia que seja. A câmera me observa tentando ler em meus gestos mínimos algo que transmita emoção, um esboço que seja, mas logo desiste.

Vejo a câmera desfilar pelos móveis e parar a centímetros do cangote de um, roçar no pelos dos braços de outro e se prostrar sobre o couro cabeludo do último, espiando os Jobs e a falta do que fazer de cada. Não é como uma polícia. A câmera não está aqui para vigiar o trabalho de cada. Me parece mais com uma resposta ao marasmo, à minha falta de ânimo e o completo desinteresse em mover um músculo.

Então a câmera se projeta pelos quatro cantos da sala. Se ocupa de registrar as últimas horas de trabalho da semana. Ignora completamente o tempo acinzentado que faz lá fora. Não quer fazer o fade out com o pôr do sol. Ela não se presta a essa fotografia batida, prefere movimentos bruscos, trepidações e cortes secos – e o ambiente quase escuro e abafado da criação. Eu ainda não movi um músculo. Ouço o zunir do vento com um rápido movimento da câmera e o raspar do plástico que sequer tocou minha orelha.

Ela me fita e eu a ignoro em desafio. ‘Preciso escrever’, penso. Mas os dedos não se movem ‘Diabos’. Minhas pernas pesam uma tonelada cada. A câmera não está interessada nisso, mas mesmo assim vê o difícil movimento articulado por meus calcanhares no esforço de empurrar as pernas e por conseqüência todo o corpo de volta a sua posição correta. Postura formal e coluna ereta. A cabeça ainda pende para o lado. Faz que vai cair e logo espanto o sono com uma rápida sacudida de cabelos, esboçando uma vitalidade que já não há.

Levo as mãos ao teclado, persistente. ‘Preciso escrever’, ainda insisto. Não mais um job. Não mais uma campanha política ou folder de comunicação interna. Escrever o que se passa aqui dentro agora, e isto a câmera é incapaz de capturar. Dedos a postos. Apreensão nos tendões, músculos despertando, fluxo de idéias começando a sintonizar no setor criativo.

(...)

“A câmera surge de repente.”.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:16:10 PM


.atrapalhe o autor:
Janeiro 21, 2008
.ordinário diário;

Pondo em linhas gerais. Preciso relatar os acontecimentos das últimas semanas.

De volta à Campinas me encontrei desabrigado. O cara com quem eu deveria rachar apartamento se mudara sem dar notícias. A saída foi recorrer ao Pacheco e seu apartamento de um cômodo, dormindo no chão com o Franklin e a Lola, a cadela vira-latas. Franklin estava à espera da formalização de um contrato de locação de um apartamento de um quarto. Me convidou para dividir. Eu sinceramente não queria continuar dormindo em um colchão na sala. Fui atrás de uma república ou algo que o valha.

Encontrei uma república há três quadras do apartamento do Pacheco, quartos individuais e banheiros coletivos. O dono da casa foi gentil e me reservou um quarto cheio de promessas. No sábado de manhã pus a mochila nas costas, juntei as tralhas e me mudei. Não fiquei surpreso ao adentrar a minha ‘caverna’. Eu estava brincando uns dias antes, dizendo que andava comendo muito porque me preparava para um período de hibernação. Quando entrei no quarto estreito me senti o próprio urso. Dos males o menor – sem duplo sentido. O quarto é pequeno, porém arrumado. Fica ao lado de um banheiro mais reservado, uma cozinha pequena e uma lavanderia – tudo isso no andar térreo do casarão antigo. Para não dizer que o quarto era minúsculo, o dono me mostrou uma saleta anexada e me explicou que eu poderia usá-la com mais privacidade. Só não me avisou que a cama parecia estar no meio da marginal Pinheiros.

Tratei logo de me acomodar. Guardei as poucas roupas que tenho e ajeitei os livros, discos e filmes nas prateleiras do guarda-roupa. Trouxe o computador da casa do Rodrigo e o coloquei sobre a mesa fixada à parede. Tudo nos conformes, meu primeiro quarto em Campinas. Na primeira noite de sono eu não estava acostumado com o trânsito de carros e freadas de ônibus – o ponto fica 3 casas adiante da minha. Com a cabeceira da cama a cinco metros da pista é difícil abstrair a fricção dos pneus. Logo eu comecei a pensar no som dos carros que andam com pressa na madrugada como o som das ondas vindo de longe e passando com uma rajada de vento. Relaxei.

Com o passar dos dias estou pondo minhas pendências em dia. Fazendo meu registro de trabalho, abrindo conta de banco, pagando meu quarto sozinho e correndo atrás do que comer. Ando sempre por aí, debaixo da garoa com um cigarro como companhia. Observo a confusão de cabos nos postes, o trânsito agressivo e as pessoas dispersas.

Divido meu tempo em casa entre bater papo com os vizinhos, jogar FIFA 08 e ver filmes. Descobri que não há como ver um filme noir dos anos 30 sem fumar jogando a fumaça contra a tela. Conheci e também me apaixonei por Antoine Doinel, sua poesia e inadequação. Tenho lido uns romances a passo de mula e pensando em escrever algo, como sempre. De resto me sobra alguma saudade, um par de planos e dias curtos – semanas idem.

Em tempo, esta é minha vida.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:24:07 PM


.atrapalhe o autor:
Janeiro 18, 2008
.ordinário diário;

Correm os últimos minutos da semana útil. À minha frente, a janela revela um céu coberto de nuvens negras-azuladas. O sol do horário de verão não está mais aqui. Não com aquela intensidade que perdura até as oito da noite. A noite ainda irá demorar um tanto. Irá se arrastar lentamente, espantando este resto de azul. Pacientemente.

A semana foi longa e desgastante. As nuvens se movem rapidamente. Mexem na cor do céu, deixam-no revolto. ‘Você é o meu centro enquanto eu giro fora de controle no meu videotape’. Thom canta as últimas notas do dia. Ele diz ‘venha calmamente para mim’,’existe uma saída’,’não importa o que aconteça agora, você não deve temer, porque este é o dia mais bonito que eu jamais vi’.

E lá fora tem algo de bonito. E talvez realmente haja saída. Saída para os nossos anseios. Uma fuga para os nossos desejos. Uma ilha da fantasia no meio dessas nuvens negras.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 6:05:01 PM


.atrapalhe o autor:
Janeiro 17, 2008
.sessão nostalgia;

"Abobrinhas Selvagens: A mão esquerda."


Fui ao banheiro. Há alguns minutos atrás. Limpei os dentes com fio dental, peguei a escova de dente, passei o creme dental, tudo muito habitual. Senti vontade de urinar. Perfeitamente. Comecei a escovar os dentes. Decidi fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Tenho esse costume. Não sei se pra economizar tempo ou por puro capricho. Fui mijar e escovar os dentes ao mesmo tempo. Eis que surge a dúvida. Mijo com a mão esquerda e escovo com a direita ou mijo com a mão direita e escovo com a esquerda? Mijo com a direita e escovo com a esquerda.

Bom. Não sei escovar com a mão esquerda. Assim como não sei mijar com a mão esquerda. Eu teria molhado o banheiro todo. Aliás. Isso me trouxe algo inusitado à tona. Pouquíssimas vezes eu usei minha mão esquerda para pegar meu pinto. Minha mão esquerda não conhece meu pinto e vice versa. Minha mão esquerda ‘quase’ sempre teve sua função questionada, provavelmente nunca passaria de uma coadjuvante no meu corpo, servindo apenas de apoio nas ações da mão direita.

‘Quase’, porque me ocorreu algo interessante. Minha mão esquerda me serve bem a funções mais artísticas, ou talvez emotivas, do que a mão direita. Inusitado. É como se o lado esquerdo fosse a emoção e o direito a razão. Lido assim isso soa tão piegas. Burp. Mas faz sentido.

Eu desenvolvi o lado esquerdo tocando violão. A mão esquerda conduz todas as harmonias que minha cabeça produz. Não. Não sou habilidoso como um guitarrista de metal, um virtuose destes. Mas a bendita da mão esquerda reproduz as idéias que são geradas, possivelmente, no lado esquerdo do cérebro.

No basquete também me ocorria este fato inusitado. Eu batia bola melhor com a mão esquerda. Logo ela que era tão pouco utilizada prendia a bola melhor que a outra mão. Talvez não seja o melhor dos exemplos, já que basquete não é arte, mas havia quem dizia que eu fazia uma bandeja como um bailarino.

Pois bem. Essa volta toda não ameniza o fato deu não conseguir mijar com a mão esquerda e de que esta não conhece meu pinto e vice versa. Me lembro de rapazes comentando teorias masturbatórias mil. Diziam os espertinho que tocar uma com a mão esquerda era como se fosse a mão de outra pessoa. Fantasia tosca, mas que neste caso até faz sentido. Poderia ser até a mão de outra pessoa, mas a mão de uma pessoa que não tem a menor idéia de como se bater uma punheta.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:17:38 PM


.atrapalhe o autor:
Janeiro 9, 2008
.ordinário diário;


















.então é 2008;




















.e mais uma vez;



















.essa desolação;


















.(...);

Não tenho comigo as palavras certas. Tão pouco alguma certeza. Sei destes dias de mudança, desse [d]isolamento, do corpo fraco, dessa gripe e do não poder contar. Tenho por certo apenas tudo com o que não posso contar nesse momento. Não sei se me dói mais a garganta ou o fato de não poder fumar - não poder contar com a companhia passiva da fumaça, com os desenhos que ela ensaia. Preciso de uma casa. De uma cama, de um espaço que seja para empilhar o pouco que consegui carregar nestes quase 23. Queria escapar desses clichês, dessa melancolia pós-adolescente e pré-alcoólica. Mas nada posso fazer se a minha vida se prestou a isso. A uma dessas estórias tantas sobre pessoas sozinhas em cidades grandes, longe de casa. Presumindo, é claro, que casa seja onde o coração está. E com certeza não é encravado por estas bandas que anda meu coração. Bah. Troquei o cigarro por um antiinflamatório, o álcool por própolis e o coração tô negociando num fígado. Interessados me escrevam.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 6:18:49 PM


.atrapalhe o autor:
Dezembro 19, 2007
ordinário diário;

Às vezes leio blogs. Pensei em escrever sobre eles. Mas pensei que seria cansativo e chato. Então me decidi por algo diferente. Decidi dar vazão às minhas idéias através de um desenho/charge sobre blogueiros. A ilustração a seguir foi realizada no Paint e vale mais que mil palavras, várias laudas e estudos bloguísticos.



Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:50:53 PM


.atrapalhe o autor:
Dezembro 18, 2007
.ordinário diário;

Há algo de errado lá fora. Ou são os dias. Ou são as noites. Persiste um clima ameno, sorrisos nos rostos e a já esperada pressa de fim de ano. Na entrada da cidade cadáveres de cães se acumulam na pista e se tornam obstáculos a mais, junto dos buracos e do recapeamento mal executado. Há algo de errado no ar. Algo além desse cheiro de carne podre. Carniça.

Nunca vi tantos animais atropelados como na entrada de Sumaré. São três quilômetros de buracos e vísceras, carcaças no asfalto modelado pelas rodas de veículos de grande porte. Passa-se o portal da cidade e se lê claramente a placa que menciona um ‘Jesus Cristo, Senhor desta cidade’. O clima já não está tão seco, mas persiste essa apreensão.

Desço as escadas, vou até a porta respirar a fumaça do cruzamento de carros, enquanto fumo mais um cigarro. Funcionários da prefeitura trabalham sobre o trevo numa intervenção paisagística, plantam mudas de coqueiros em grandes vasos de concreto. Penso na carne pútrida dos cães fritando no asfalto quente. Ar empesteado e verde. Na felicidade latente das moscas-varejeiras, nas larvas que no ventre oco são fornidas.

Realmente há esse clima estranho perambulando na calçada. Observando pelas frestas das grades das casas simples, pelas brechas das janelas, por detrás das portas de correr. Olhos atentos. Vejo pessoas que mal calculam os passos, analisando a superfície da calçada com desleixo, chutando uma ou outra pedra. Pisando em chiclete e cocô de cachorro. Tomando topadas e encontrões. Assim como os cães da entrada da cidade, que desatentos encontram as rodas de automóveis e pára-choques de aço. São todos gado.

Termino o cigarro e volto para o escritório, para minha cadeira na Criação. A fumaça ainda me refresca as idéias quando dou por mais um pedido de trabalho. Campanhas políticas. Existe esse clima tenso no ar e é Natal. Lá fora pessoas e cachorros vagam desatentos. Aqui dentro minha carne está podre, verde. Sujo o documento do pedido de trabalho com as chagas de meus dedos. 'Pro Diabo', penso alto. Mãos podres à obra.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:55:59 AM


.atrapalhe o autor:
Dezembro 14, 2007
.ordinário diário;

Não ia escrever. Não há por que ficar insistindo. Enfim. Recebi essa boa notícia. Li, aliás. Estava lá escrito com simplicidade. Eu no quinto copo de vinho e as letras em caixa alta. ‘GRÁVIDA’. Bonito. Esperei onze anos por esse recado. Eu ali, aquele homenzarrão tendo de conter as lágrimas. Não é filho meu. É quase como. Entendam.

Eu e meu pai temos essa ligação. Estreita. Tem pais e filhos que são amigos. Nós somos pai e filho. Num sentido pleno, como tem de ser. Existem essas pessoas. Elas dizem ter boa relação com pais. Falam em grande amigo, amor. Essas coisas. Não duvido delas. Mas a nossa plenitude é diferente.

Então meu pai vai ter outro filho. Finalmente, 23 anos de espera. No ano em que saí de casa meu pai conseguiu. Ele e sua companheira, Raquel. Ela eu tenho por certo que será boa mãe. Eu com idade de pai, serei irmão - mais uma vez. Dessa vez de filho de meu pai. Mais um integrante para nosso clã. Pra dividir nossas coisas. É como se o amor crescesse. E é o amor crescendo.

Ter um irmão agora é se multiplicar. É somar o que eu e meu pai temos. Com esse outro. Ou outra. Será da mesma forma. Só que melhor, com uma pessoa a mais. Mais um par de olhos pra se entender. Amo tanto meu pai que não tenho como não amar da mesma forma um outro pedaço seu. É o amor crescendo. Essa multiplicação.

Hoje digo. E repito. Que o amor está aumentando no mundo. No meu mundo. E sem meia conversa. Isso me dá uma puta felicidade.

'Seja bem vindo meu sangue-irmão'.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:50:56 PM


.atrapalhe o autor:
Dezembro 13, 2007
.ordinário diário;

Não sei como, nem quando se deu esta minha admiração pelo o que é sujo e de mau gosto. Eu tinha lá alguns resquícios da tradição romântica, flertava com o surrealismo e com o fantástico. Pois bem, sequei. Me acostumei à dureza e se fez interessante a feiúra. Antes a violência me chocava. Me trazia desagrado. Hoje a violência é uma das poucas formas de beleza genuína, de expressão de humanidade.

Vivo numa pilha involuntária. Chego para trabalhar, sento na minha cadeira, ponho os fones de ouvido e abstraio tudo ao redor. O ambiente a minha volta não passa de um borrão, uma paisagem sem foco. Se alguém me toca o ombro ou me desvia a atenção o coração dispara, o sangue ferve. Às vezes grito. Fico tão concentrado em nada que me perturbo com qualquer gesto que desvie minha atenção do exercício de meditação diária. Tenho estes rompantes violentos. Sempre me sinto a um passo de cometer uma agressão física. Não. Não fico planejando detalhadamente a morte de ninguém, embora já o tenha feito. Mas não é um hábito.

Houve tempo em que andava pelas ruas imaginando toda a sorte de mortes violentas que eu poderia ter de acordo com o local em que passava. Imaginava automóveis desgovernados, calculava saltos das janelas dos prédios, tentava medir o impacto de um tiro, de uma paulada na cabeça, olhos furados, membros decepados, espinha rompida, vísceras escapando, fraturas expostas (...) e etc. e etc. Me acostumei a ver fotos de cadáveres. Já vi alguns cadáveres reais, quando criança, mas em um laboratório. Pareciam bonecos, prestavam ao estudo. Ainda hoje evitaria ver uma vítima fatal na rua. Pudor talvez. Não querer se misturar à multidão de carniceiros.

Enfie uma coisa nas idéias. Não deveria ter todo esse apego ao corpo, à matéria orgânica. Esta está fadada ao apodrecimento. E não vejo motivos racionais para criar asco ao que existe dentro de mim. Eu sou esses conjuntos de ossos, músculos e órgãos. Talvez desagrade ver o quanto parecemos vulneráveis por dentro, ou ficar imaginado se fulano sofreu quando o caminhão passou por cima da cabeça dele. Whatever. Tenho me acostumado à idéia que morte é morte e não se escolhe.

Não consigo cruzar a Anhanguera sem imaginar um acidente automobilístico espetacular. Imagino qual seria minha reação no momento da tragédia. Se teria tempo de pensar em uma posição melhor para não ficar preso às ferragens, ou se apenas soltaria um ‘Fodeu...’.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:22:43 AM


.atrapalhe o autor:
Dezembro 11, 2007
.ordinário diário;

Eu realmente gostaria que todos vocês fossem se danar. Morressem por aí de uma causa destas violentas que ninguém gosta de olhar - mas todo mundo olha. Suicídio. Atropelamento de ônibus. Bala perdida na cabeça. Acidente de avião. Corpos mutilados – os seus corpos. Qualquer coisa. Menos esse olhar onipresente. Essa desolação em cima do meu blog. Eu olharia o corpo de vocês todo fodido se querem saber. Ainda mijava e cuspia em cima. Só não cagava, porque cagar me é um hábito solitário.

Outro hábito solitário é esse blog. 5 anos desta merda. Lembro que o jornalista perguntou se eu queria ser publicado. Eu não queria não. Mas ele forçou a porta até rolar algo que era de interesse da matéria, ‘blogueiros que usam a internet pra chegar aos livros’. Não que não goste de livros. Gosto sim. Tenho meia-dúzia em casa. São um bom peso de papel depois de lidos. De resto ficam lá pra uma eventual pesquisa rápida, uma olhadela naquela sacada do autor. Não tenho apego por livros. Eles não deveriam ficar na minha mesa sem utilidade esperando que eu me voltasse para seus mundos independentes. Seriam mais felizes em sebos esperando um novo leitor. Um novo par de olhos interessados. Eu ainda prefiro um site de sacanagem a um livro já lido. Um filme de sessão da tarde com o Adam Sandler. Um discurso do Hugo Chávez.

Mas não me livro dos livros, nunca. Assim como não me livro da porcaria do blog. Eu gosto mesmo dos livros velhos. Eles têm a melhor diagramação, a cerifa é ótima de se ler. Não preciso nem lê-los. Me deleito só pela diagramação. É bonito ver as letras de cerifa no papel. As que falham e pouco marcam. Uma mais tortinha que a outra. Mas minhas letras não fariam bonito num papel. Elas não devem cair nesse desengano, nesse arroubo de holofotes. Minha música não. Devia tocar até no Gugu. O povo devia me carregar nos braços e agradecer por eu ter nascido por minha música. Mas paciência. As outras pessoas nem sempre acertam.

Eu estava escrevendo esse diário. Assim que a novidade acabou, tudo perdeu a graça e eu deixei de escrever. Virou rotina. Virou paisagem. Bem comum. E olha que me interessam as amenidades, mas nem de amenidade se tratava mais. Minha vida melhorou um pouco e eu cansei de queixas. Fui jogar FIFA 08. Ganhei 8 temporadas seguidas, todos os campeonatos. Voltei ao início, troquei de time. Vou jogar mais umas 10 temporadas. Ano que vem tem o FIFA 09 e assim por diante. Não preocupo. Sempre terei o que jogar. Só que ano que vem num vai ter o Corinthians, meu time rebaixado, já que o jogo só tem a primeira divisão do brasileirão. Fazer o quê?

Estão vendo como posso escrever como vocês? Como posso falar um monte de amenidades descartáveis. Cagar na mão e jogar fora. Pois é. Mas não gosto de sujar as mãos de merda antes de tocar o papel branco e escrever. Até agora num parei um só momento de digitar. Os dedos no teclado sem parar, inundando essa tela idiota de pormenores. Ao menos num sou piegas. Blogueiro gosta de ser piegas e falar um monte de merda. Principalmente os apaixonados ou desiludidos cafonas. Eu sou desiludido, mas não cafona. Alias. Cafona e desiludido não combinam. Me perdoem. Não se pode ter desilusões e continuar cafona. Os cafonas são os desiludidos que acreditam que voltarão a se iludir. Eu estou certo de viver sóbrio por dentro e ébrio por fora. All the fucking time.

Sim. Mas o assunto desta merda era o quinto aniversario do blog. Eu perdi as contas de quantas vezes mudei o template e de quantas series já criei. Nenhuma teve sucesso, nada deu muito certo por aqui. Não para os leitores. Para mim está em ordem. Vou seguir perfeitamente assim. Não é de todo bom - e nem deveria ser. Se pesca um texto legal aqui ou acolá. Outras coisas nem tão ruins, mas completamente dispensáveis. Sabem como é. A maldita vida é assim. O que posso fazer? Queria mesmo era me livrar desses olhos imaginários que me perseguem, me cobram textos e continuidade. Escrever é legal. Mas vendi minhas letras pra publicidade. Não posso reclamar disso. É o que me financia musicalmente. É o que está enchendo minha prateleira de filmes. Não. Eu não vou chorar nos filmes como vocês.

Eu ainda gosto do Schwarzenegger. Não vou usar filme de arte pra comer ninguém. Posso até bater uma punheta vendo um filme do Bertolucci. Aquele cara me entende, é um depravado também. Não. Não me olhem com todo esse pudor. Quem é o indie que não se masturbaria vendo Os Sonhadores? Eu fiz melhor, dei uma bela duma trepada, aproveitando o restinho de luz de fim da tarde. Lindo. Mas ainda prefiro a cena da manteiga no Último Tango Em Paris. Lá vem vocês com seu pudor de novo. Mereciam manteiga no rabo também. Que homem não é fã daquela parte obscura da anatomia onde se manda o povo tomar o tempo todo? Os hipócritas.

Enfim. Cansei de escrever. Saiam da minha cabeça, não preciso de vocês. Não preciso de leitores imaginários, não preciso de julgamento. Preciso de uma vagina. E de uns cigarros. De um garrafão de vinho barato. E de outro ácido pra agüentar mais 5 anos de blog.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:43:47 PM


.atrapalhe o autor:
Novembro 22, 2007
.sangue, porra & dentes-quebrados;
.coletânea imaginária de contos, pontos e doenças venéreas;

02.

Janaína acordava antes do galo. Pegava a condução que balançava entupida até o trabalho. Vestia avental e toca branca sobre a rede de prender cabelo. Tomava um dos lados da esteira e com luvas e faca afiada limpava o frango que já vinha depenado. O cheiro dos animais mortos empestava o ar. No começo dava náuseas, agora era um cheiro qualquer, cotidiano. Era boa no manejo da lâmina. Em poucos segundos limpava um destes bichos amarelados. Tirava a cabeça, abria um talho na barriga e separava os miúdos - cortava os pés. Deixava a ave pronta pra embalar. Doze horas ali - todo dia – mãos frias e unhas roxas.

Se vocês querem verdade, Janaína era jovem e tinha algo de bonita. Não a jogaria fora. A comeria mesmo sabendo que isto faria ela mais feliz que eu. Se deitava com facilidade. Era natural pra ela. Tirava a roupa do corpo miúdo e deixava a pele pálida sobre a cama. Esperava o outro se deitar e abria as pernas. Fazia com quase todos. Quase, porque tinha algum capricho. Preferia os que tinham pêlos pelo corpo, formas masculinas distintas. Gostava de dar e despejava seus poucos anseios nisto. Muitas vezes mal a olhavam o rosto. Mas o gozo o valia.

Acontece que Janaína pegou bucho sem saber de onde. Aquilo começou a crescer-lhe no umbigo. Até ali imaginava o ventre seco, estéril. Não tardou o enjôo e os sinais eminentes da gravidez. Não sabia como e quando aconteceu. Ignorou. Continuou freqüentando camas até que começaram a lhe negar o coito. ‘Onde já se viu comer mulher nesse estado?’, diziam sem remorso. Para outros, pouco importava a circunferência que dali brotava. Punham-na de lado, em cima ou mesmo embaixo e ficavam olhando o movimento do buchinho enquanto fodiam entusiasmados. Uns mais empolgados lhe esporravam a barriga e não escondiam a satisfação daquilo. Janaína espalhava o sêmen com as mãos, como que se os movimentos e o líquido fossem lhe secar o interior. Mas não.

Lá pelo quinto mês deu pra ter pesadelo. Sonhava com o feto deforme, com natimortos. Numa noite frustrada, sem cheirar a suor de homem, deitou-se. Tirou a calcinha e levantou o vestido, observando a barriga nua. Por um momento a idéia de um filho sem pai não era tão ruim. Teria companhia certa, um homenzinho talvez, com pernas longas e sorriso aberto. Não teria que implorar a atenção de um pobre diabo. Teria ali o seu pequeno homem com cheiros e gestos masculinos. Adormeceu pensando daquilo.

Não falava sobre a gravidez. Não era bom pra funcionária solteira. Também não seria caso pra escândalo. Mas preferia a discrição. Era contida nos gestos. Só os homens da noite o sabiam, o avental branco eliminava qualquer suspeita. Às vinte horas chegava em casa e se entregava a um banho demorado pra se livrar do cheiro de frango. Quando não saía a cata de um macho apagava no colchão.

Em um dos sonhos estava numa cama, num quarto escuro. Uma luz fraca no teto disfarçava as paredes encardidas. Do lado da cabeceira havia uma bacia com água. Reparava na composição grossa. Parecia lodo - talvez sangue. Tentou se levantar e teve dor. O corpo arqueava a cada tentativa. Os nervos lhe travavam as pernas. Levou a mão à barriga e deu pelo ventre seco, a pele flácida sobrando. Uma mancha escura lhe marcava o lençol por debaixo da bunda.

Uma mulher grande e de modos grosseiros entrou batendo pé no quarto. Cravava os tamancos no assoalho que rangia. Janaína lhe reclamou algo - não foi ouvida. A mulherona trazia uma toalha enrolada junto ao peito. Se aproximou da cama. Janaína lhe agarrou o avental. Tomou uma tapa na cara pela ousadia. ‘Quieta bicho’, propagou a voz abafada e surda. O corpanzil ofereceu a toalha na direção de Janaína. Esta apalpou sôfrega o tecido, tomou-o para si e o protegeu no colo. Desenrolou com cuidado o pano e contemplou a pequena besta. A cabeça tal qual a de um bode, o olhar estrábico e confuso, os cascos afiados e aflitos batendo feito castanholas. Um membro enorme e rijo surgia por entre as pernas. A glande vermelha - berrante. Teve ânsia. Quis se livrar daquilo. Nova tapa. A mulherona a vacinou contra tal vacilo. ‘Cuida do fruto desse teu ventre podre, mulher’, largou num tom rasgado.

Se encolheu toda na cama. Tinha pavor e aquele pau duro ameaçava sua face como um objeto pontiagudo. Quase podia vê-lo lhe varando a testa. Logo ela, tão intima daquilo que os homens juntavam na mão com orgulho.

A mulherona notou seu desagrado. Relutou um instante. Disse que não se agradava por isso, mas que por um preço justo lhe ajudaria. Tirou uma faca destas de cozinha das suas coisas de parteira. Janaína estendeu a mão, não sem antes levar uma última tapa na cara. ‘Desnaturada. Bicho’. A mulher grande arrastou os tamancos e pôs aquele corpo todo porta a fora. Passou a chave no trinco. Janaína com o filho-bode no colo sabia como fazê-lo. O que não tinha era coragem. Tomou um esguicho quente na cara. Um líquido negro que se desprendeu do pau duro. Enguiou. Náusea braba. Gesto definitivo para lhe tornar o nojo raiva.

Com a faca cega serrou desajeitada o pau e o atirou pra longe. O filho-bode começou a bater as castanholas freneticamente, se sacudindo todo. Cravou-lhe a faca no peito e com força na mão lhe abriu a barriga. Soltou-lhe as tripas. Limpou o filho como a um bicho qualquer, atirando os bofes ao chão. Por fim decepou-lhe a cabeça que lhe trazia grande desagrado, o olhar perdido e débil.

Despertou do sonho numa agonia funda, recobrando o ar. Levou a mão à barriga, o filho ainda estava lá. Ao invés de alívio, teve repulsa. Precisava tirar aquilo. Não teria bebê algum. Nasceu para puta e não para ter cria. Em desespero enfiou os dedos magros e compridos na vulva. Imaginou que poderia alcançar o feto. Risível. Tentou a calma. Respirou. Foi à cozinha e pegou uma garrafa de conhaque. Um trago iria ajudar. Vários goles. Todos retornaram em golfadas. Sem conseguir espantar a aflição, enfiou a garrafa entre as pernas. Iria afogar a criança em bebida barata. De pernas pro ar definhava. ‘Morre diabo’. Tinha prazer na imagem do filho morto. O conhaque secou - ‘Morreu diacho?’.

Silêncio. Teria acabado? Não. Sentiu um chute – e um ódio tremendo. Tornou a cozinha em busca de uma faca. Faria a operação de Cezar por si só. Alucinada, abriu as pernas e calculou a incisão. De fora a fora, tal qual um largo sorriso, abriu um talho na carne. Enfiou os dedos por entre músculos e gordura. Forçou a abertura. Meteu a mão lá dentro e agarrou o corpúsculo. Puxou devagar o feto pra fora. Parecia um pequeno boneco. Uma cabeça desproporcional ao corpo minúsculo, a boquinha murcha e sem dentes se movendo lentamente. A esta altura, Janaína sabia - iria se esvair em sangue.

Tinha o filho minúsculo entre os dedos. Já não conseguia lembrar como e porque chegou até ali. Estava a perder o foco. Fraquejou frente aquele pequeno pedaço de carne, se sentindo tão pequena quanto. Via sua vida murcha e mínima. O passar de dias. De repente a única coisa que fazia algum sentido estava ali, morrendo em suas mãos. O pôs contra o peito, cantando baixinho. Ninou o sono dos dois. Dormiram assim, mãe e filho uma única vez.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:52:02 PM


.atrapalhe o autor:
Novembro 12, 2007
.oridinário diário;

Todos sabem. Está mais que na cara. Não quero mais escrever. Não em definitivo, este peso todo, este impacto não é o que procuro. Eu só estou aqui escrevendo porque, simplesmente, não tenho absolutamente nada para fazer e decidi espantar as moscas de cima do blog. Não quero mais escrever porque quero fazer outras coisas mais legais: beber, fumar, jogar Fifa 08 e fazer músicas. Já já canso de fazer música e só vou jogar Fifa. Depois vou cansar de jogar Fifa e ficar apenas bebendo e fumando. Quando cansar de beber e fumar, minha vida não terá mais sentido, então irei procurar uma boa mulher e constituir família.

Enquanto há esperança eu me mantenho firme e bêbado. That's all folks. E fica aqui aquela frase pra quem quiser estressar: "Ora, se você quiser se divertir invente suas próprias canções". Eu estou indo me divertir, vão ler um clássico. Vão ler Kerouac, Miller, Bukowsky, um desses marginais de verdade pra pagar de descolados no bar. Vão ler alguma baixaria útil, algo com 'sangue, porra e dentes quebrados' (esse poderia dar um bom título de livro). Ou vão ler o maior sucesso editorial de todos os tempos "O Segredo". Ou não leiam, assim como eu. Encham mais um copo, acendam mais um cigarro, afinem o violão e vão ser felizes.

Eu vou ficar aqui, bebendo, fumando e tocando sem me preocupar com nada. Esse negócio de escrever não tá com nada. O lance é jogar Fifa e ser feliz.

O Autor.



Escritos de um desconhecido autor publicado às 6:52:37 PM


.atrapalhe o autor:
Outubro 23, 2007
.ordinário diário;

Às vezes gasto meu tempo com caretas frente ao espelho. Ou na verdade, não posso ver minha face refletida que me ponho a analisar os contornos e cultivar suas possibilidades. Pratico as mais variadas expressões, explorando minha flexibilidade. Me considero bom nisto. Não poupo beiços e sobrancelhas. Estimulo os pés de galinha a talhar-me as maçãs, como que abrindo facões de terra, erosões na derme.

Em criança, nas viagens para o Mato Grosso – o do sul e do Pantanal – o último trecho da estrada era composto por cem quilômetros de terra batida. Dizia meu Pai, que na estrada se fazia cem quilômetros em uma hora, mas que na estrada de terra um automotivo rodar a mais de oitenta era risco. Um destes riscos eram os facões de terra.

Poucas vezes ouvi essa expressão. ‘Facão de terra’ me trazia objetos metálicos e cortantes. Os tais ‘facões’ eram faixas longas e estreitas de areia fina. Geralmente o carro superava o facão seguindo sobre ele, cada par de rodas delimitando sua minguada largura. Meu Pai atentava para o fato de que se uma das rodas invadisse o espaço de um facão de terra, o carro poderia perder a aderência sobre a terra areada e fina. Uma capotagem fantástica me vinha à imaginação e me assustava. Assistia com atenção o Passat fazendo o trajeto. Embora uma vez num Fusca também o realizamos com destreza. Mas salientava meu Pai que o Passat era carro campeão de rally, e que fazer aquele percurso era pinto.

Não me vexo pelas caretas. Guimarães Rosa também o fazia. A foto mais famosa de Einstein o mostrava zombando da própria genialidade com a língua à mostra. Não sou gênio como Einstein, tão pouco guardo em meu interior as linhas de Guimarães. Faço caretas para subverter-me os traços, submetê-los ao estranhamento de meus olhos, à surpresa. Me espanta todos estes ‘eus’ contidos na pele elástica marcada por um sem-número de sinais escuros.

Nas viagens para o Mato Grosso do Sul conheci uma das cidades em que minha família viveu. Naviraí era uma cidadela cravada numa das planícies do centro-oeste. O que me mais me chamava atenção era a grande quantidade de areia que se acumulava nos meios-fios por todo o município. Não entendia e ainda não entendo a presença daquela areia ali. Não esperava areia tão longe do litoral a cobrir as ruas. Em Naviraí vi meu tio despontar para a política, dando verdadeiras lições de moral nos políticos retrógrados e incultos do interior pastoril. Também não entedia donde vinha aquela língua afiada de um filho de família simples. Disseram-me que o pai de tio Neno fazia até rinha de galo. De vereador daquele buraco Tio Neno foi à capital e ajudou a eleger o último governador do estado do Pantanal.

Em Naviraí também conheci a babá de minhas primas. Aos seus catorze anos, bem servidos nas curvas generosas, não era raro flagrar meus tios e Pai lhe lançando gracejos. Ouvia pelos corredores da casa comentários lhe valendo o corpo bem fornido. Lembro-me que ela zombava de mim, de meu corpúsculo gordo e flácido. Apalpava-me os peitinhos de gordinho e isso me irritava por demais. No dia que lhe retribuí o gesto não me senti vingado. Senti tesão. Pela primeira vez, aos nove. Aquele peito farto, redondo em sua forma mexeu direitinho ali nas minhas bolinhas. Senti vontade de fazê-lo de novo, mas ela me repreendeu, disse-me que eu, enquanto menino-homem-macho, não poderia repeti-lo sem ser convidado. Me disse isto sem me atribuir culpa pelo primeiro gesto.

Hoje bem sei o porque de sua volúpia ter se guardado em minha memória. E não me é difícil imaginar dúzias de possibilidades diferentes de comê-la, de lhe traçar o rabo que rebolava para os machos afoitos. Sairia de minha casa e lhe bateria à porta, ela viria ter comigo, falaria com a porta entreaberta. Não me reconheceria a princípio. Pela fresta eu veria as crianças crescidas e seus peitos caídos, o rosto cansado de trabalhar. Pensaria, vacilaria um segundo e diria que bati na porta errada. Iria embora com uma fantasia morta. A boca mínima e a cabeça com um par de idéias. Ainda me restaria um mundo todo de bocetas para desbravar.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:22:19 PM


.atrapalhe o autor:
Outubro 22, 2007
.ordinário diário;

Sexta-feira. Às seis em ponto batemos cartão no bar, sentados numa mesa de plástico sobre a calçada. O horário de verão nos dá o sol das cinco às seis da tarde. A rua de paralelepípedos fica em um bairro agradável nos arredores do centro. Por debaixo da copa da árvore que cobre a calçada, matamos a sede com uma Brahma gelada, conversamos amenidades e confidenciamos alguns planos. Nada mais digno, após uma semana entediante de trabalho. Um ar fresco indicava que a temperatura iria cair.

Lá pelas tantas eu já estava bêbado. O tempo voou das seis às onze. Havia uma festa para irmos na Unicamp. Rodrigo disse que estávamos atrasados, que sempre chegávamos tarde aos lugares e que o povo desta cidade dormia com as galinhas. Eu repliquei que festa que é festa só ‘acontece’ após a meia-noite. Passamos em casa pra trocar de roupa. Eu aproveitei para comer e pegar um agasalho surrado, filho único.

Entramos na Unicamp. Antes de nos perdermos questionamos um destes tipos gordos, com uma camisa do R.D.P. sobre onde diabos seria a tal festa. Explico. Antes de realmente entrarmos na universidade enfrentamos uma fila de alguns quarteirões duas vezes. Na primeira vez eu indiquei um caminho que nos levou de volta a rua, fora da Unicamp. Na segunda não pestanejamos em perguntar para deus e o mundo o caminho correto. Eis que vem o gorducho andando apressado. Ele responde para descermos uma rua, virar no fim e seguir o barulho. Parecia óbvio que haveria barulho. Pois bem, o caminho não era tão simples e não havia todo este barulho, ao menos eu não ouvi nada.

Avistamos uma manada de tipos universitários, todos responderam como que tirando onda da nossa cara onde era a tal festa. Estacionamos o carro e subimos a rua. A princípio não tive a real noção, mas havia mais de mil pessoas no lugar. Quem sabe duas mil pessoas. Um palco mínimo reverberava mecanicamente Ramones. O som era baixo e perto daquele mundarel de gente era impossível que se espalhasse. Só quem estava à frente do palco ouvia algo. Logo notei a primeira baixa da noite. Acabara o fluído do meu isqueiro e ninguém mais da nossa turma tinha um. Teríamos que nos enturmar com os locais pra conseguir fogo. Imaginei que essa seria uma boa chance de trocar duas idéias com uma garota qualquer. Imaginei em vão. Não que me faltaram chances. Faltou foi alguma vontade espontânea, algo menos planejado. Nenhuma fêmea ali me despertou esse instinto.

Num dado momento, na fila da cerveja, travei um contato imediato com uma delas. Eu havia comprado a última cerveja e a dita cuja me indagou disto. Lhe ofereci um gole para que ela não fosse com sede até a próxima barraca. Em seguida não disse mais nada. Apenas assisti a moça sair serelepe, se perdendo no meio do povo, após furtar uma golada de minha latinha. Waste of time.

O fim de noite logo veio. Ainda vi um bando de guris fazer uma torre humana. Torci para que os tombos da tentativa resultassem em algo mais sério, mas meus anseios foram em vão. Os meninos caiam feitos bonecos e tornavam a escalar os corpos que serviam de base, afoitos por atenção. Ao som de uma banda que misturava música eletrônica com reggae e noise fomos embora.

No dia seguinte voltamos ao bar da sexta. Estamos tentando criar familiaridade com o lugar, ter um canto nosso na inóspita Campinas, a capital renegada do interior paulista. Um lugar onde trataremos os garçons pelo nome e seremos reconhecidos pelos bebuns que lá se deixam como monumentos inertes, parte essêncial da decoração, assim como a gordura, o mofo e a sujeira que se acomulam no teto.

Tenho pensado em cinema. De certo vou fazer o vestibular e quebrar a cara. Até lá vou imaginando detalhadamente as produções que me trariam agrado em realizar. Sigo destrinchando alguns romances adaptáveis, gastando horas com películas antigas e cigarros. Estas pequenas coisas que me trazem algum conforto nestes dias de 'nem-lá-nem-cá'.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:28:10 AM


.atrapalhe o autor:
Outubro 18, 2007
.ordinário diário;

Encho o copo. Olho para o teclado. As teclas amareladas me respondem com um ar de desdém. Caçoam de mim. Sabem lá de dentro do seu interior de plástico moldado que não serei capaz de concluir um raciocínio. Quiçá um novo escrito, capítulo desta saga desprovida de graça, mas com algum charme - percebo. Vejo o copo barato transbordando um líquido de igual valor. O roxo me salta aos olhos. Num esbarrão tenho a mesa como que sangrando, mas não. Este é o primeiro copo, ainda. Minha perícia o garantirá intacto por alguns minutos.

A vida na metrópole campinense não progride. Não me motiva a gastar as castigadas pontas dos dedos em algo de aproveitável. Comecei algumas linhas para logo depois abandonar tudo e fumar algum cigarro. Tem sido assim ao longo das últimas semanas. Só de ter chegado a um segundo parágrafo quase enxergo triunfo. Quase tenho a mesa avermelhada como podium. Essa mesa vermelha como o vinho que hei de derrubar, não em protesto. Contemplaria o vinho se espalhar pelo móvel como se fosse meu próprio sangue e o tocaria. Com as pontas do dedo iria acariciar a madeira, melando os pequenos tentáculos por algum deleite recalcado.

Quando digo que a vida não progride em Campinas, não estou sendo apenas dramático ou pessimista. Estou me armando o interior com o clima seco, com a fumaça que me custaria muita prosa para descrever. Estou forrando as tripas com a impessoalidade dos olhares na rua, com o peso que aqui existe em se dispensar um mísero cumprimento. As pessoas são sim educadas. Mas carrego no meu jeito de andar, olhar e nas palavras contidas o signo dos forasteiros. Tudo em mim grita que não sou daqui. No modo como eu contemplo admirado as edificações ou no andar impreciso de quem não sabe aonde vai. No sotaque malhado, vira-lata. Meio Paraná, meio Alagoas.

Prolongar minha melancolia através das palavras não me é terapia. Tão pouco um exercício de reflexão. Desconstruir esse vasto mundo em letras negras me é um alento para essa vida pueril. Um modo de exercitar a criatividade, que no trabalho é mal aproveitada, obrigada a se cravar no chão. Pura construção ideológica de um cotidiano que passa longe de toda essa alegoria. Casa-trabalho-casa. Os pés nas meias sujas, as meias no tênis quente e a cabeça por aí. Em algum lugar onde ainda haja beleza e convicção. Estas duas palavrinhas que me fugiram, escaparam em algum determinado momento. Talvez nas asas do avião que me trouxe até aqui.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 9:13:27 PM


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Setembro 27, 2007
.ordinário diário;

Revisando.

Meus dedos dormem. Sinto suas pontas como que parando, cedendo à dureza do teclado. Não sei a idade do artefato. Sei das teclas amareladas, dos botões altos que demandam um esforço incomum. Mas mesmo assim dedico horas a fio aos botões, como um maquinista operando uma engenhoca destas antigas.

Decidi revisar meu ultimo texto. ‘Incomum’, alguns devem dizer. Porém me dou essa liberdade de mexer e remexer nos escritos. Na última vez o vinho e o cânhamo me impediram a clareza das idéias. Não que estas devam representar alguma pureza –preciosismo – mas tenho sim algum zelo pelas letrinhas.

Então. Meus dedos dormem. Imagino o pouco da carne que veste o osso sem oxigênio ou sangue circulando. Vejo as pontas roxas, fibra e tecido necrosando, deixando de ser. Me antecipo as mãos inúteis. Inoperantes. Os pequenos tocos digitando sem expressão. Incapazes de dar vida a palavra alguma. Me assisto machucando as cordas do violão – as cordas trastejando com o atrito das pontas dos ossos, que escapam pelos restos de dedos. Presencio minha imagem falida e me regojizo. Rio da minha miséria.

Mas não. Meus dedos não irão necrosar. Mas tantas horas de teclado podem me servir bem em uma lesão por esforço repetitivo – é quase inevitável. Terei pinos nas mãos neste dia em que a gana por ter letras impressas me for menor que a dor. Minha mãe tem LER. Antes ela se doía por uma tendinite. Quando praticava basquete eu vivia de tendinites e torções múltiplas. Jogava mais para superar a dor, do que para superar os adversários. Geralmente uma grave contusão trazia uma dor nova, maior do que a anterior. E o alívio que encerrava a agônia era algo quase inexplicável. Era um gozo destes que nem a melhor das bundinhas é capaz de dar. Enfim, se estas mãos forem inutilizadas eu aguardarei impaciente o alívio da recuperação. E se este não vir, espero ao menos pelo pós-operatório, pela retirada dos pinos sem anestesia.

Está cidade é o próprio inferno.

O tempo nos joga de um calor sufocante ao frio inesperado em horas. Acho graça do meu corpo resistindo. Sem gripe, sem se deixar cair doente. Rodrigo não. Rodrigo tem calor mesmo quando o frio incomoda a todos. Eu me aborreço disso. Rodrigo é o rompante e eu sou a calma. Ele é a janela do carro escancarada no frio e no bafo. A minha está sempre fechada. Ele é os modos brutos, enquanto que eu exploro a delicadeza. Ele é a emoção e eu a razão. Ele tem sim sua dose de razão, mas nem percebe quando ultrapassa o limite e definha numa dúzia de idéias com um pé na lua. Eu permaneço impassível e me alegro. Me alegro de ver que nossa relação depende destes extremos. Até o dia que o inferno desta cidade nos jogue em desarmonia.

Meus dedos já dormem novamente.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:36:13 PM


.atrapalhe o autor:
Setembro 20, 2007
.ordinário diário;

Precisa-se de um mínimo de romance nesta vida. Umas porcas palavras que sejam. Sem romance seria casa-trabalho-casa. Sem romance o céu de São Paulo seria apenas feio, não caberia um pingo de lirismo ali. Romancear todas essas pequenas coisas, para se ter graça donde graça não há, é preciso.

Nada de novo me precipita os dias. Em casa meu tempo se divide entre o computador, a música, um ou outro Scorcese, um livro de marketing político e um romance. O marketing político só leio na privada, privando o resto da casa de ser emporcalhada. Quando o relógio aponta para o doze e alguns minutos quebrados, eu preparo minha cama. Deito com uma cerveja e o maço de cigarros e volto a Alagoas.

Através da angústia de Graciliano eu volto para Maceió, mas não a cidade com a qual eu me familiarizei nos últimos doze anos. A Maceió de mestre Graça bem que poderia ser Campinas. Poderia ser qualquer cidade suja e cinza. A vida fodida de Luís poderia ser a minha. Engraçado que me irritava ler ‘mestre Graça’ nos jornais. Hoje entendo que Graciliano merece o ‘mestre’ como poucos. Já o ‘Graça’ me cheira a uma adulação que não combina com o tom seco e sisudo da obra do escritor. Angústia me parece um volume para poucos. Ler Luís falando em Marina me traz Ela sobre a cama, aos meus pés, me intimando com o olhar.

Tenho pensado n’ela. Ela num cabe mais em um corpo só. Nem fala em uma só voz. Ela agora é tantas. É nenhuma. Ela é um pedaço de cada uma e esse ser desmembrado me traz romance. Essa criatura remendada, pé d’uma e coxa d’outra. Um peito além e um aquém, aureolas de cor e tamanho diferentes. As nádegas deformes, mas ainda sim um convite ao coito. A pele por onde corri as pontas dos dedos e os lábios. A pele que não fui convidado a tocar. O sexo úmido de mais de um sabor. O destempero. Falta coesão nas idéias. Ela não fala d’uma boca só.

Minha musa é uma aberração. Impraticável na sua beleza borrada, no seu canto atonal. Diferente da imagem do poeta babaca, eu não a quero num altar. Eu a espero num vestido de chita, com calos nas mãos e os olhos vagos. A boca seca implorando água, o corpo suado - ardendo. Quero subjugar o tronco torto, lhe rasgar a roupa, comê-la e ser comido. Devorado até minha alma toda se sentir fodida. Até me desorientar os contornos da carne, fundindo meu corpo naquilo - virar uma coisa só.

Tenho pensado n’ela e em todas as suas vozes. No olho maior que o outro. Em sonho eu a chamo, me afundo todo no lençol. Retorcido. Ela não me atende. Já não me saem as palavras.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 3:19:40 PM


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Setembro 18, 2007
.ordinário diário;

Rodrigo tem teorias. Teorias como a das três cuecas, mas esta não vem ao caso. Rodrigo teoriza cada passo da vida de solteiro aos vinte e poucos. Eu, monge que sou, ouço tudo. Dou um sorriso de compreensão e faço floreios de bom observador. Lá fora o clima briga consigo mesmo. Calor abafado e frio rascante se digladiando, enquanto que de dentro do pequeno apartamento tanto fez, tanto faz. Aqui é um mundo a parte, onde só há espaço para nossas abstrações. O clima é um mero detalhe, não interrompe as teorias de Rodrigo, nem os meus cigarros.

A sala tem seis lados. Nenhum cômodo do apartamento se contenta com o quadrado chato. Nem mesmo o banheiro. Tão pouco a área de serviço. Existe sempre um ângulo em diagonal para interromper a monotonia dos quatro lados. E Rodrigo tem plantas. Plantas que respiram a fumaça do cânhamo e que, aos sábados, são encharcadas e postas ao sol. Não raro eu me levanto para ir ao banheiro trôpego, com passos de ressaca e piso numa poça d’água. Balbucio um resmungo qualquer, enxugo o pé no banheiro e a planta lá, com as folhas claras ao sol, como que rindo de mim.

Se os dias ditos úteis descrevem uma perfeita parábola para a monotonia – algo como uma melodia monocórdica – os fins de semana são as pausas. O silencio nas partituras. O maestro deflagra a sinfonia do compositor menor. Dá tempo aos músicos da orquestra para virar a página. Eu viro o sábado. Viro o domingo. Viro a noite de domingo sem pregar o olho.

Segunda desperto tal qual um zumbi da tumba. Eu agora me aproprio do direito de teorizar de Rodrigo. Penso no ar de desagrado dos zumbis. No hálito podre de além-túmulo. O pobre do morto-vivo abandona sua cova. Abandona o conforto da terra úmida, a companhia das minhocas e dos pequenos vermes. Deixa o aconchego da eternidade para sanar alguns débitos da vida – dos quais se julgava perdoado. Por isso ele caminha como que arrastado. Por isso o semblante de desagrado, o ar pesado.

Eu abandono o apartamento ao passo de um zumbi. De soslaio dou bom dia ao porteiro. Ele mal responde, os olhos atentos ao telejornal. Penso nos meus dedos grossos afundando na sua careca lisa de vigia residencial. Imagino-me lhe abrindo o cocuruto, revelando o suculento cérebro. Quando estivesse lambuzado de sangue, com pequenos pedaços de miolos e fios de cabelo entre os dentes eu me lembraria do trabalho. Da longa estrada até Sumaré. Abandonaria-lhe a carcaça e entraria no Celta preto, com o Rodrigo irritado pela minha demora. Iria para a agência levando um belo sermão sobre não devorar mais porteiros às segundas de manhã. ‘Você acha que estas roupas sujas de sangue são modos de um publicitário sério?’. Eu não responderia. Arrancaria sua cabeça e jogaria pela janela. Deixaria o carro derrapar e capotar sem motorista, para depois bater na mureta e repousar no centro da pista à espera de um caminhão de grande porte. Impassível dentro do veículo eu assistiria a carreta me despedaçar junto ao carro popular. Ainda vejo minha cabeça rolando pelo asfalto com um sorriso sínico. A cabeça vai rodovia abaixo se desfazendo até restar apenas o sorriso. Rio-me dos Jobs não-feitos. Rio-me dos donos da agência se descabelando sem sua dupla de criação. Rio.

O porteiro me responde o bom dia com um aceno. Eu desço os poucos degraus da escada que levam para fora do edifício. Penso na teoria das três cuecas.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:13:08 PM


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Setembro 12, 2007
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Cotidiano.

O despertador toca às sete em ponto. No fino colchão com que forro o duro sofá-cama eu me viro de um lado para o outro. Procuro uma posição confortável em que nenhum osso encontre repouso numa tira de madeira. Depois de dez minutos de movimentos frustrados decido me levantar.

No banheiro observo minha cara pálida de noite mal dormida. Mijo sem problema algum. Mesmo tendo a abstinência sexual como uma companhia incômoda, não tenho tido ereções matinais regulares. ‘Queda de desejo?’, me pergunto. No banho respondo a mim mesmo com uma punheta curta e indiferente.

Me visto e ponho a água do café para ferver. Preparo uma xícara generosa e acendo meu primeiro cigarro do dia – o café da manhã dos perdedores. Tenho consciência de que percurso cama-banho-punheta-café-cigarro, que realizo todas as manhãs, me serve para espantar o sono. Ao chegar no trabalho ainda arrisca um copinho de café, a fim de manter o ar desperto. Mas o café do trabalho é quase intragável e só desse esôfago abaixo depois de um farto copo d’ água.

Acomodado em minha cadeira, me ponho a verificar a pauta do dia. Das nove da manhã a uma da tarde me concentro na tela do Word, escrevendo e reescrevendo cada frase mentalmente, para logo depois depositá-las no documento virtual. Finalizo meus jobs aguardando o tremor de terra que antecipa o trem. Quando toda a sala treme eu me sinto satisfeito de estar ali.

O almoço voa da uma as duas. Alguma salada e muita carne me entretém durante doze minutos. Fumo um cigarro na sombra de uma árvore sentado de cocaras. Penso em meus antepassados na mesma posição, matando um fumo de rolo com tragadas profundas.

No expediente de duas as seis o tempo corre. Não rendo da mesma maneira. Talvez o peso da comida, talvez uma dívida com o sono. Às seis da tarde desligo meu computador, apanho meus cigarros e me despeço da estação de trabalho revestida de fórmica branca. Cochilo no banco do passageiro e me acordo com o trânsito tumultuado da cidade.

As noites são curtas. Fumo boa parte do maço de cigarros papeando, comendo, ouvindo música ou vendo um filme. Já passa de meia-noite e ainda estou no computador. Desligo a máquina, preparo a cama e me ponho a encarar a escuridão. Não sei ao certo o momento que apago. O despertador toca às sete em ponto. Eu me reviro na cama por uns dez minutos e desisto mais uma vez.

Cama-banho-punheta-café-cigarro.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:47:41 PM


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Setembro 9, 2007
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Eu quero botar fogo nesse apartamento.

Acordar cedo em um sábado. Impensável em Maceió, realidade em Campinas. Eu e Rodrigo fomos à feira do Centro de Convivência. ‘Feira hippie’, tratou logo de taxar o Meyer. Entre artigos de inspiração indiana, artesanatos e afins, traçamos um tradicional pastel e xeretamos as barraquinhas. Incenso e uma alpercata para ele cigarrinhos e comentários impertinentes para mim. Num espaço para adoção de animais conversamos a respeito de e decidimos por uma mascote felina para o lar. Este, devidamente castrado, será incorporado a nossa rotina nos próximos dias, ampliando a fauna local.

Impressionante é o correr das horas entre as paredes encardidas do apartamento. Como passatempo oficial um jogo eletrônico de futebol domina toda nossa atenção, enquanto que lá fora o sol e o termômetro, que indica trinta e três graus, faz a alegria dos transeuntes paulistas.

Cai a noite e o Parque Dom Pedro é o nosso destino. Maior shopping da América Latina, propagam. A temperatura já caiu uns oito graus. Compro algum vestuário simples para o trabalho. Andamos invisíveis entre os milhares de locais. Penso em trinta mil pessoas. Talvez exagero. Lá fora a temperatura já diminuiu mais uns três, quatro graus. Me lembro da professora primária falando sobre o clima subtropical e suas mudanças repentinas.

Num boteco do Cambuí esperamos dez minutos por uma cerveja. Já estou tremendo e rangendo os dentes. Tenho vergonha da minha falta de costume, de já não suportar o frio como antes. Acendo um cigarro no filtro do outro. Falamos sobre nossa atual situação, do estrangeirismo inusitado. Disparamos contra as garotas e a falta de camaradagem do garçom. Só mesmo o preto velho que vende pão caseiro troca alguns gracejos conosco. Penso em um personagem de Harvey Pekar desenhado pelo Crumb. Somos os únicos a dar atenção ao pobre homem. Me agrado pelos traços e pelo modo como ele articula as palavras. Com os dois de bolsos quase vazios, ajeitamos um pão por um preço abaixo da etiqueta. Com certeza foi a simpatia, tanto da nossa parte, quanto da dele. Saímos de cena, o velho com seu sorriso generoso e a gente com o café da manhã seguinte.

O Celta negro acelera rua a baixo, nos levando para a segurança das noites solitárias em frente ao computador.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:59:47 AM


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Setembro 7, 2007
.ordinário diário;

Estava ela no casamento / E eu no futebol.

E lá se foi a primeira semana de trabalho. Tempo suficiente para analisar cruelmente e depois desmistificar meus atuais companheiros de labuta. Para abrandar a correria e o estresse do ambiente da agência, marcamos uma partida de futebol society para depois do último expediente. Alerto a todos sobre minha falta de intimidade com as bolas nos pés. Faço bom uso da pelota apenas com as mãos - confesso. Não confidencio a ninguém minhas habilidades como goleiro e insisto em ser o último homem do ataque, ‘el matador’.

A partida começa.
Na primeira oportunidade que tenho assinalo um ‘goal’ para minha esquadra. Numa partida de futebol society – um futebol de campo reduzido e praticado sobre um tapete de grama sintética – os times são composto de seis jogadores em cada equipe. O objetivo é o mesmo de qualquer pelada no país do futebol: marcar gols, anular o time adversário e, eventualmente, humilhar o oponente com um drible desconcertante. Na falta de um sexto homem o nosso time joga com cinco, tendo a vantagem de escolher o melhor arqueiro. O outro time, com um homem a mais, não se encontra em campo. Abrimos uma vantagem de quatro gols com duas finalizações certeiras de meu pé direito.

Números finais: seis para os de cá contra três para os de lá; minha falta de fôlego após quinze minutos de correria – cigarro, penso; um passe perfeito anulado por um chute desajeitado realizado por mim no fim do jogo e perdoado logo em seguida pelo meu time, vitorioso e exausto.

Parábola do homem comum / Roçando o céu / Um senhor chapéu.

Após a partida peço uma cerveja e acendo um cigarro. A fumaça chega límpida nos meus pulmões, transitando sem obstáculos pelo meu cérebro hiper ventilado. Cada tragada é um alivio.

Churrasqueira, carvão e carne. Todos comem e bebem. Meus chefes, que apenas assistiram a partida, alguns companheiros de criação e agregados. Comentários oportunos sobre o mau desempenho dos times, mulheres e piadas infames são articulados sem pretensão. Todos compartilham risadas e olhares satisfeitos. É desses momentos que se fazem os homens comuns.

De repente me vejo fora do corpo, visualizando a cena de fora da derme. Eu aos vinte e dois sentado em uma cadeira, bebendo e comendo após um racha no interior de São Paulo. Quando que eu poderia ter imaginado tal cena nas fibras e membranas suculentas de meu crânio?

No caminho de volta para Campinas acendo um baseado. Tenho evitado fumar para não passar mal. Ter quedas de pressão e dor de cabeça. Mas imagino que neste momento o fumo não me fará mal algum. Arriei no banco do Celta preto, filosofando sobre o instinto de sobrevivência que rege a vida, os animais e as plantas. Este instinto que me trouxe a este ponto da vida.

E novamente o telefone toca / E é você do outro lado / Devolvendo minha insônia.

Em casa adormeço no sofá, assistindo a uma série policial nacional de dez anos atrás. Um enlatado tosco e porcamente produzido pela CNT Gazeta. Durmo um sono denso, a cabeça pesando uma tonelada. Às duas e meia da manhã o telefone apita desesperado do meu lado. Atendo e é ela gritando com uma voz aguda e bêbada por detrás de uma parede de ruído. De certo música alta. Ela grita insistentemente que me ama. Eu deveras perturbado tento dialogar, mas é impossível. O lado de lá desliga. Adormeço novamente certo de que, mesmo que se houvesse respondido ao grito bêbado e alegre eu não teria sido interpretado.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 2:45:43 PM


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Setembro 4, 2007
.ordinario diário;

Estrada de terra que/ Só me leva, só me leva/ Nunca mais me traz.

A sala treme. As janelas e a mesa tremem. São oito e pouco da manhã e o trem passa lá fora. Meio que pontual, meio que atrasado. A reunião é longa. Uma hora vira duas. Duas viram três. E minha paciência se esvai, entrecortada por lembranças recentes e os olhos cansados. Quase cochilo ao lado de meu chefe, enquanto que todos se esforçam para demonstrar interesse pelo organograma. Os slides passam um a um no Power Point e eu penso no trem me levando pra longe.

Sou amante de Milton. Milton é amante dos trens. Aquele trem decrépito me é poesia pura. A melodia das engrenagens enferrujadas, dos trilhos gastos do tempo são caricias no meu ouvido. Não como as caricias d’ela. Não como o roçar calculado da língua nos contornos da minha orelha. Aquela velha locomotiva é a ponta de um velho mundo, que eu toco momentaneamente com os dedos, todas as manhãs quando chego ao trabalho.

Que vontade de não mais voltar.

A reunião me foi o discurso de um Fidel. Fui previamente avisado sobre a pauta. Não havia nada que eu não soubesse que seria dito. Dormi pouco e acordei ainda madrugada. Me concentrei. Balancei as pernas, me movimentando de forma inquieta para espantar o sono. Meu chefe é um ser simpático, devo dizer. Mas nada me preparou o espírito para tão longo monólogo. Realizei toda a pauta da manhã em meia hora. Me certifiquei de não haver erros, da consistência das informações e despachei o arquivo para o servidor central da criação. Aguardei o Rodrigo para almoçar. Um prato de salada, alguma carne magra. Um chiclete para adoçar a boca e tirar o resto de comida dos dentes. Cinco reais.

Sobre tornar o íntimo público.

Digo ao Rodrigo que a comida é boa e o preço justo. Ele me diz para esperar alguns meses para opinar novamente. Eu digo que comi a vida toda a mesma comida em casa. Ele resmunga algo sobre ‘tempero de mãe’. Falo em frescura. Ele reclama uma quentinha mais em conta. ‘Comida de quentinha não é tão boa’, digo. Não chegamos a lugar algum.

Rodrigo reclama, é verdade. Diz que Rodrigo é íntimo e que não devo me referir assim em meus escritos. Digo que meu texto é íntimo e que assim será. Não dou a ele a última palavra. Pelo contrário. Entrego estas novas letras a vocês, tornando púbico o íntimo.

Ponta de areia/ Ponto final.

Deito para dormir e estico o braço para fora do colchão. Tento alcançar o trem, que no horizonte desfila devagar. Flutuando. A ponta do meu dedo toca o metal do vagão. O sofá cama treme. A mesa do computador treme. As cadeiras, janelas e plantas do pequeno apartamento vibram em uníssimo. Adormeço com o braço estirado, seduzido pela melodia dos trilhos. Embalado pelo atrito das rodas gastas da velha locomotiva.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:52:02 PM


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Setembro 3, 2007
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Segredo não se diz/ Segredo nem feliz.

No meu segundo dia sóbrio em Campinas eu fui conhecer meu novo local de trabalho. Acordei cedo, tomei um banho, fiz um café forte e acendi um cigarro - enquanto Rodrigo se arrumava. Comi uma banana, tomei um copo de leite de soja e arrumei meus livros na mochila. Tocamos para Sumaré através da Anhanguera e suas quatro faixas de pista rápida. No caminho paisagens bucólicas, trens e indústrias faziam pano de fundo para amenidades do dia a dia, ditas sem preocupação.

A E3 Comunicação está hospedada no primeiro andar de um edifício mínimo. A organização da agência gera um contraste quase desonesto com a pequena cidade e seu trânsito ininterrupto de micro-ônibus intermunicipais. Parece que as pessoas lá fora buscam em Campinas um pouco da sofisticação que se espalha através da porta de vidro, no piso, paredes e salas da agência de publicidade.

Minha primeira impressão sobre meus novos companheiros de trabalho é positiva. Pessoas simples trabalhando com o que gostam, felizes por esta oportunidade. Um breve bate-papo com os donos da empresa e me tranquei na criação. Um certo clima de disputa pela atenção do novo funcionário e piadas sem graça me aborreceram um pouco. Logo vi que o melhor era ficar na minha, com o som no talo.

Small flowers crack concrete.

A tarde se estendeu em um trabalho chato e burocrático. Quando saímos da agência já eram quase oito horas. Uma importante reunião nos aguarda doze horas depois. No carro eu cochilo com o ruído da chuva forte contra o pára-brisa. Ninguém fala.

Em casa, eu e Rodrigo desaceleramos um pouco conversando. Sem computadores ou música, apenas o som baixo da tv ligada no telejornal. Uma hora e meia de bate-papo e cumplicidade na nossa, agora, vida a dois. Toco duas ou três músicas próprias no violão. Rodrigo toma sua cerveja e faz um elogio ou outro. Ele não precisaria dizer nada para que eu soubesse que a música agradou. O silêncio cortado pela minha voz áspera – cigarros – e as notas desafinadas do violão já bastariam.

Anything is better than nothing.

Ontem antes de dormir eu resolvi escrever. Escrevi para o amigo com o qual julguei não ter agido bem. Escrevi para ela, a quem ainda devo muita coisa. De meu amigo recebi a resposta que imaginava, e tive uma confirmação do que vivemos antes de todo esse maremoto. D’ela recebi apenas o silêncio. Um silêncio merecido. Entendo o quanto minhas palavras estejam gastas. Do quanto perdi de credibilidade em propagar minhas letras. Talvez todas já foram usadas, uma ou duas vezes. O silêncio e o tempo são, então, meus merecidos companheiros.
Segredo não se diz.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:55:10 PM


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Setembro 1, 2007
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Felicidade capitalista.

Quando realmente decidi me tornar publicitário, me despi de um tanto de hipocrisia e de utopias desgastadas que insistiam em mim. Sou uma engrenagem com resultados diretos no Mercado. Trabalho diretamente para o establishment, sem grandes intermediários. Me sinto melhor assim, com os olhos um pouco mais abertos que a maioria das pessoas. Faço o que faço porque gosto e sei o que faço.

I went to the market to realize my soul.

Hoje eu e Rodrigo fomos ao mercado comprar utensílios domésticos e comida. Fizemos a festa capitalista. Nos realizamos. Meu café agora é o mais saboroso. Uma leiteira nova ferve a água sem sabor algum. Misturo o pó de café extra-forte em minha nova caneca de porcelana, sento-me na mesa do pc e acendo um Lucky Strike da cigarreira com meu novíssimo Zippo. Bato as cinzas do cigarro no cinzeiro dos Malvados celebrando o câncer de laringe. Marcas e nomes. Publicidade e a falsa sensação de status destes objetos inúteis e indispensáveis.

Rudie Can’t Fail.

Esses dias tenho pensado sobre meu comportamento rude. Tornei-me rude há pouco tempo. Parece-me um eco da puberdade niilista e rebelde que tive. Mas não. Existe uma necessidade de coerência com o que falo e faço. Quase honra, ou algo menos nobre e vicioso. Lealdade com meus atos e escolhas. Não sei se fiz as melhores escolhas. Não sei se errei ao endurecer com a vida. De todas as coisas em que acreditava restou e prevaleceu o ‘Eu’. Talvez essa casca seja superficial, e todo aquele sentimento guardado me escape por entre a fina tez. Ou talvez não.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 9:33:56 PM


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Agosto 30, 2007
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Olho mágico.

Deixe eu lhes explicar um pouco sobre o meu prédio.

O edifício tem onze andares. Fica nas extremidades do Cambuí, dividido por duas ladeiras. Na direção centro, ele é luxuoso. Na direção oposta, ou subindo a ladeira – o que seria improvável de carro, por ser contramão – a cidade dá sinais de um possível declive social. A nossa rua é mão única para o luxo. Para descobrir o que estende na direção oposta é necessário buscar um retorno de carro ou ter disposição e pernas. Ainda não tive nenhum dos dois. Apenas meus olhos estiveram atentos a tal desigualdade de cenários.

O prédio íngreme de onze pisos é esguio e quase laranja. Alguns porteiros me cumprimentam, outros apenas me reservam uma olhadela de canto de vista. No espelho do elevador eu arrumo meu cabelo e observo meu semblante roto, de rapaz sem mãe.

Isso nos leva ao corredor, ao hall que se divide entre: entrada e saída de dois elevadores, uma porta corta-fogo para as escadas e quatro portas de apartamentos. Pelo formato do prédio, acredito eu, todas as residências são de mesmo tamanho e disposição. O contato com outros condôminos é mínimo, inexistente.

O corredor de acesso aos apartamentos é frio e escuro. Não há sequer qualquer incidência de luz. Se lá fora tem sol e o dia está agradável, no corredor é sempre frio. E esta frieza se estende ao convívio com os outros moradores. Não se ouve bom-dia ou se vê rosto algum.

Minha nova ocupação é correr ao olho-mágico sempre que ouço o som de alguma porta se abrir. Corro na esperança de encontrar algum rosto comum, uma expressão familiar que seja. E tudo que tenho são imagens distorcidas de um olho-mágico. Figuras alongadas e sem foco. Distinção alguma de sexo, raça ou credo.

Na grande cidade, onde todos lutam por seus espaços para impor suas diferenças, nós somos assim uns aos outros. Figuras borradas em um olho mágico. Completos desconhecidos.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 6:36:35 PM
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.ordinário diário;

O café tem gosto de caldo de frango. Mas essa é uma longa história, mais um detalhe da vida fora da casa dos pais. Os dias têm corrido dentro do pequeno apartamento. Saio pra comprar meus cigarros e algumas cervejas no meio tarde e depois volto. Volto pro kit net frio, pra mesa do meu computador.

Minha mesa é um móvel simples. Uma mesa com ar antigo, envernizada num tom de madeira vermelha que lembra o jacarandá. O pouco que sei sobre madeira aprendi ouvindo as conversas de marceneiro de meu Pai.

Além do computador, duas gramáticas disputam espaço com uns poucos romances que estou por ler. A minha esquerda um cinzeiro branco e a cigarreira de Lucky Strike, sempre acompanhados por um copo de café. Este café solúvel instantâneo com gosto de caldo de frango K’nnor.

Segunda-feira acordei precisando tomar um bom café preto. Procurei nos armários da cozinha e não encontrei uma leiteira pra esquentar a água. Achei apenas uma panela engordurada. Lavei bem a panela e pus a água pra ferver. A água estava engordurada e com cheiro de caldo de frango. Repeti a lavagem e a fervura da água mais uma três vezes e me dei por vencido. Nada tirava aquele gosto de caldo de frango.

No fim de semana compro um bule. E um colchão, minhas costas não agüentam mais esse maldito sofá cama. Bah!
Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:05:15 PM


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Agosto 27, 2007
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Processando.

Hoje eu saí pra andar. Pra me perder nas ruas da nova cidade. Registrei que na minha rua, a Coronel Quirino – as ruas do bairro são batizadas com nomes de militares – tem: duas ou três padarias decentes; várias lavanderias; alguns bancos; um clube de tênis; dezenas de edifícios de luxo; hotéis luxuosos; alguns edifícios feios; uma livraria com café; uma concessionária Harley Davison; (...)
As ruas de asfalto se intercalam com períodos de paralelepípedo que dão um ar charmoso às ruas arborizadas. Parei na primeira padaria pra comprar meus cigarros. Na porta um grupo de coroas com sotaque italiano discutiam algo que me pareceu futebol.

Andei.

Destemido, me decidi por realizar todo o percurso da Coronel Quirino, ver onde desembocava todo esse luxo. Atravessando largas avenidas e ruas estreitas cheguei a um bosque. Atravessei um viaduto que se bifurcava em mais um par de viadutos e lá no fim avistei a minha direita o centro. Por entre as ruas estreitas, protegidas pelas sombras de grandes edifícios eu caminhei até os hemisférios da região central, do comércio. Encontrei uma avenida familiar e voltei pra casa. Perto do apê parei em uma farmácia pra comprar um genérico de benegripe. Cumprimentei o porteiro e subi.

Hoje, eu e Rodrigo nos tornamos felizes proprietários de um par de cinzeiros dos Malvados. Um par porque o meu está reservado para o Lucky Strike Silver, já o dele...

Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:58:23 PM


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Agosto 26, 2007
.ordinário diário;


O apartamento é feio, minúsculo e mal decorado. O bairro é bonito, tem gente bonita e cheia da bala – leia-se grana. Muita grana. Nas ruas do bairro, bares se enfileiram abarrotados por esnobes da classe média alta campineira. Talvez nem todos sejam habitantes do Cambuí. Por um instante não duvido que existam muitas pessoas lá fora, em outros bairros querendo morar aqui. Status.

Primeira impressão.

A embriaguez dos sentidos me assaltou. Cheguei aqui anestesiado. No aeroporto eu descobri que um café expresso pequeno custa dois e vinte. Descobri também que se você pedir pra viajem vem o dobro do mesmo café - pelos mesmos dois e vinte. Dois expressos que valiam por três e um par de lucky strike. O clima está perfeito e o céu de São Paulo castanho. Ou marrom, uma cor de fumaça suja.
Entre um comprimento e um baseado a Marginal Tietê ia se estendendo pela janela do carro. Três maceioenses num Celta preto procurando a entrada para a Rodovia dos Bandeirantes. Perdemos a primeira e fomos atrás de um retorno. Eu notei que não havia visto nenhuma placa de retorno. Não deve haver muitas placas de retorno em São Paulo. Tenho a impressão de que lá, se você não sabe os nomes das ruas e dos lugares, é porque você não deveria estar ali.
Seguimos uns dez ou quinze quilômetros. Placas indicam entradas para a Marginal Pinheiros e mais a frente placas indicam a aproximação do Morumbi. ‘O Guga mora no Morumbi’. Rodrigo lembrou o caminho pra casa e o Guga mostrou na prática o que já me era alertado: aqui a cerveja é quente e cara. Três cervejas num boteco em Morumbi (imaginem o “boteco”) , um baseado e uma despedida. Acertamos o caminho.

Pânico.

Pensem em um bebê. Ele passa nove meses em um útero. Quando nasce, um bebê demora um bom tempo para esboçar que reconhece o mundo ao redor. Ele é jogado ali naquele lugar desconhecido e obrigado a se acostumar com todo aquele amontoado de coisas novas. Então o bebê passa a depender completamente dos pais.
Entrei pelo centro da cidade, pela região do comércio. A impressão não é das melhores. A cidade me parece desordenada e sem sentido. Muitas curvas e cruzamentos embaralham a bússola de qualquer um. Não encontrei nenhum ponto com o qual eu me identificasse. Fui jogado num lugar completamente novo e fiquei dependente dos outros pra me guiar. Mas só para me guiar.

Isolamento.

As poucas pessoas que conheci aqui, e que também vieram de Maceió, carregam grandes semelhanças. Todos são cheios de silêncios e tem também o olhar. O olhar carrega uma coisa ali dentro perdida. Olhos cansados de procurar o mar verde e se deparar sempre com paredes de concreto e viadutos monumentais. Todos carregam o signo do isolamento. ‘Aqui a gente fica mais em casa’.
A ficha só começou a realmente cair quando cheguei aqui. E deu vontade de voltar pra casa. E deu vontade de sair e beber com os amigos e de andar com os olhos vendados nas ruas de Mangabeiras. Devaneios vespertinos. Fui dormir com a barriga cheia de big mac e acordei. Ainda estava no mesmo lugar.

Pensei.

Pensei que vai ser muito difícil. Pensei que eu não posso fraquejar. Pensei que agora era só eu só. Tomei coca light, fumei um lucky strike silver e sentei no sofá-cama da nova casa. Entre um trago e outro dei as boas-vindas a minha vida nova e fodida.

PS: Devo começar no trabalho na quarta, ou talvez apenas no dia 5 de setembro, ou seja, só vou ter dinheiro em outubro. Até lá a recessão reina.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:48:54 PM


.atrapalhe o autor:
Agosto 24, 2007
(...)

"Até o dia em que o cão morreu eu não sonhava."

(...)
Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:09:25 PM


.atrapalhe o autor:
Agosto 10, 2007
1.

Não sei ao certo como começou. Era como uma comichão. Subia-me pelas pernas. Era coceira em todo o corpo. Inquietante. Mesmo paralisado, imóvel, lá estava ‘aquilo’ nas pontas dos dedos. Digitando, tateando tudo. Um suplício. Deitava-me pra dormir e começava o suadouro. Pingava, encharcava travesseiro e lençóis. Não havia mais vida social, não existia contato com outras pessoas. Emudeci frente ao que sentia.

Ninguém dava pela minha falta, ou quando me viam pouco lhes interessava saber o que se passava. Falavam o tempo todo sobre amenidades da própria vida. Essas pessoas não param de falar. Não dão tempo de você responder ou se expressar. Simplesmente não observam o mundo ao redor. Estão centrados demais em seus próprios umbigos.

Pois bem. Passei dias sem sair de casa. No começo ligavam do trabalho, queriam saber o porquê do meu sumiço. Falavam e falavam. Eu mudo do outro lado da linha não respondia. Dias após dia me ligavam. Não atentavam para o fato da pessoa deste lado da linha não emitir um único ruído. Foram dias. Não sei se desistiram de falar comigo. O telefone foi cortado antes.

Fiquei incomunicável. Trancado em casa. Eu e aquela coisa dentro de mim. Vontade. Dormia pouco. Comia o mínimo. Não fumava. Não bebia. Não trepava. Era só eu e a comichão. Coçava tanto a pele, cravava as unhas com tamanha vontade, que aos poucos estava todo cortado, ferido. Mas não passava. A vontade não ia embora. Cansei de coçar, de ferir minha própria carne, enfim. Não sou burro a ponto de me acostumar com auto-flagelação.

Passaram-se semanas. Talvez um mês. Então nesse dia, não faço idéia se segunda ou quarta, sexta ou domingo. Nesse dia eu abri os olhos. E foi como se abrisse os olhos pela primeira vez. Me sentia outro. Não como que possuído. Não como que vencido. Este tempo todo guardado em casa, eu não estava lutando contra a comichão, estava assimilando tudo. Digerindo, processando. Não estava expelindo. Pelo contrário. Estava tornando orgânico.

Naquele dia quando acordei, tive certeza: iria matar alguém.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:36:09 PM
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2.

Acordei cedo. Fui até o banheiro. Urinei sentado por conta de uma ereção matinal. Comum. Joguei água no rosto. 'Fazer a barba'. A lâmina do barbeador estava cega, quase enferrujada. Toda minha perícia não foi o suficiente e uma linha vermelha se formou na face direita - à esquerda do antigo espelho. Parei de movimentar o aparelho, observando o sangue que brotava. Um fio mínimo que se misturava a espuma.

Esquentei água. Numa xícara joguei pó de café e uma colher gorda de açúcar. Fui até a janela, enquanto mexia. Observava as pessoas na rua. Passando, andando com pressa. Analisei cada uma dela, como que escolhendo um alvo. Logo outro pensamento me distraiu daquilo. Me vesti e segui pro trabalho.

Na Transportadora Cascavel nada havia mudado. Se em quase 10 anos nada de surpreendente havia entrado por aquele portão, não seria nesse mês fora que algo haveria de acontecer. Ninguém me cumprimenta. Sigo para a sala do dono. Seu Rubens. Ele me fita por cima de um formulário de entrega e começa a falar coisas. Disse que eu não poderia ter sumido dessa maneira. 'Há muito trabalho'. Ponderou falando que nestes anos todos, eu não havia faltado um só dia e que nos últimos 4 anos tão pouco fiz menção alguma a tirar férias. Me entregou um envelope. 'Salário'. Ele continuou falando enquanto eu saia da sala dele. Entrei mudo e sai calado.

Trabalho não era mais problema. Não carregaria mais uma caixa que fosse, não passaria mais madrugada preparando caminhão de entrega e nem pegaria a estrada. Não me admira o fato de que não me foi cobrada uma só palavra. Capaz de nem darem mais pela minha falta e de no próximo mês ainda assinarem um cheque em meu nome. 'Animais'.

Caminhando pela rua via toda a sorte de tipos que povoam esse mundo. Brancos quase-brancos, negros e mulatos. Mendigos, vagabundos, bêbados e trabalhadores. Carros de luxo blindados, com fumê e ar-condicionado. Pastor evangélico em palanque improvisado. Pregando. Figuras ilustrativas de um cotidiano. Gente desatenta andando sem objetividade.

Trombei em uma senhora. Poderia ser minha mãe, ou mais. Ela assustada me fitou. Algo nos olhos dela me trouxe um enorme desagrado.

- Velha suja. Saiu assim naturalmente, o insulto. 'Velha vadia e suja'.

Os olhos dela enormes, imploraram algo que não cabia à minha piedade. Mas em um instante soube que não seria ela e que nem seria assim.

Segui pela rua, adiante. Eram quase seis da tarde.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:35:47 PM


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Julho 23, 2007
3.

A noite passada não foi das melhores. Agitação. Entre um sonho ou outro, me vinha a cabeça um recorte de memória. Imagens avulsas, confusas, quase como que um mosaico ou um caleidoscópio de atos antigos. Entre estes pequenos cacos, aparentemente desconexos, a imagem de Roberta se destacou.

Acordei e me sentei ao pé da cama, nu. Um feixe de luz invadia o quarto por uma das janelas e me atingia em cheio o peito. Deixe-me ali parado, contemplativo. Lembrando. Analisando a figura de Roberta, ou Berta, como a chamavam pai e mãe.

Era a sexta série do ginásio. Um ano adiantado nos estudos. Sempre fui calado, sempre na minha. Por ser menor eu evitava todo o tipo de confusão e quando convocado por algum outro aluno eu me apresentava simpático e prestativo. Assim eu evitei problemas a minha vida toda.

Mesmo menor, eu me sentava ao fundo, onde havia espaço para a minha abstração. Do meu lado estavam apenas os alunos mais indisciplinados e mais ao lado Roberta, que mesmo sempre calada, não conseguia deixar de chamar atenção com o corpo avantajado e disforme, e os modos nada convencionais para uma menina. De certa forma ela era, assim como eu, uma exceção naquele ambiente escolar.

Não sei por que cargas d’água se deu o primeiro diálogo entre eu e Berta. Só sei que com o passar dos dias, manter um mínimo de diálogo que fosse, se tornara comum. Eu não fazia questão daquelas palavras, de fato, era ela que me procurava. Devia ver algo de comum entre nossas escolhas pela solidão escolar.

No começo só nos falávamos na decrépita escola pública. Depois eu a acompanhava até em casa, foi na frente daquele portão enferrujado que eu descobri que Roberta era Berta para os pais e que isso lhe conferia algo de doce. Ela naquele tamanhão todo, desengonçada, a voz grossa quase masculina e o falar manso, pausado. O olhar fixo no chão na construção das sentenças. Nada disso me trazia delicadeza. Mas o apelido, o nome diminuto lhe conferia essa doçura momentânea. Como que se seus ouvidos fossem acariciados pela intimidade e um brilhinho se formasse ali naqueles olhos castanhos. Achei isso bonito e passei a chamá-la apenas por Berta.

A primeira vez que nos beijamos foi no pátio do colégio, depois que o inspetor tinha recolhido todos os alunos e só restávamos nós dois. Lembro que ela me falou algo sobre estar triste. ‘Não me enxergam’. Falou assim trêmula e tomou minha mão. Eu passei a tremer também, um nó grande nas tripas. Ela olhou meus olhos, passou a mão na minha nuca e com o indicador fez todo o desenho da minha boca com cuidado. Encostou nos meus lábios e deixou sua boca repousar na minha. Sem língua ou saliva. Sem sobressaltos.

Não conversamos sobre isso. Falávamos de tudo, de todas as bobagens pré-adolescentes, coisas que de quem já está cansando de ser criança. Eu estava me acostumando, já procurava ela. Nos fins de semana ia chamar ela pra sair no fim da tarde, ficar de bobeira perto de casa, batendo papo. Às vezes nos beijávamos. Beijos curtos. Um misto de curiosidade e cumplicidade.

Um dia um dos espertalhões da nossa sala nos flagrou num desses beijos. Eu não sabia. Quando cheguei no colégio danaram a fazer chacota das nossas caras. Eu que sempre quis ficar longe da atenção alheia me afastei da Roberta. Tive medo e vergonha. Ignorava os seus olhos e suas poucas palavras. Nunca mais nos falamos.

Nessa noite de insônia Roberta voltou pra mim e como eu desejei que ela tivesse reagido com violência a minha imaturidade. Ela tinha corpo e força pra isso. Um soco bem dado na boca do estomago, um ponta-pé no baço. Imagino ela agora sobre mim, dirigindo toda uma sessão de golpes contra o meu rosto deformado pela força daquela mão pesada.

Essa idéia me excita e no meio dessa tarde abafada eu me meto a bater uma punheta pra Roberta. Essa punheta que nunca aconteceu, ou que ela mesmo poderia ter tocado antes. Me masturbo pensando no rosto quase infantil, naquela bunda gorda e principalmente na violência dos seus golpes contra meu corpo.

Gozo com o ultimo jorro de sangue que escapa da minha cara manchando o sofá marrom de porra. Se eu soubesse da merda toda que era essa vida eu teria comido fácil a Roberta.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:00:52 PM


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Julho 14, 2007
.o silêncio e a palavra;

O silêncio é uma pedra densa. A palavra é uma marreta larga e compacta. O primeiro golpe. A primeira investida fracassa. A face achatada da marreta desliza e arranca apenas uma pequena lasca. A lasca fere seu rosto. O segundo e mais preciso movimento abre uma pequena fenda. Um talho escuro. Sombrio naquela rocha toda. Seu rosto aponta dúvida. A sobrancelha arqueia. As pestanas oscilam. Os dedos envolvem o cabo de madeira com firmeza. No terceiro golpe a rocha faz que cede. Engana. A fenda aumenta e revela mais pedra. Resistente na sua dureza. O rosto se faz sério. Analisa. Tateia a superfície lisa com a órbita dos olhos. Novo golpe. A fenda avança alguns milímetros. Pouca coisa. Difícil ver a olho nu. O rosto serra os dentes. Uma seqüência de pancadas é deferida. (...). O rosto incrédulo daquilo ali. A rocha como inteira. Naquela fenda uns poucos centímetros revelam mais rocha. Mais pedra. Mais dureza. ‘Desistir?’. O rosto se pergunta. As mãos não se entregam. Conduzem o grande martelo por minutos a fio. Atingindo. Ferindo. (...). Calos e bolhas. O rosto contempla seus troféus. As duas mãos ensangüentadas. A fissura avançou coisa de centímetro. Um bom olho perceberia. O rosto até descansa. Se permite plácido por um momento ou dois. As mãos pedem. Anseiam por novos golpes. O silêncio é uma pedra.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:38:01 PM


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Março 4, 2007
Alberto Não Dançava.

Alberto não dançava. Era dado aos bailes, mas vexava-se de propor o sabor do fiasco aos sádicos que espreitavam os exibicionistas em busca de um tropeço.

Desejava pés-de-valsa e se entrega à solidão do copo de papel transbordando ponche de frutas da estação, e às conversas fiadas sobre qualquer acontecimento mundano e corriqueiro.

O íntimo de Alberto reivindicava-lhe muito mais.

Queria asas atadas aos calcanhares para flutuar lépido sobre o salão. Não fazia a menor questão de estar cercado de olhares. Bailaria sozinho se possível, para ele a dança era mais. Tinha para si este fato como o único sentimento real e cabível naquele ambiente de confraternização pueril.

Não é que Alberto amava a dança mais que tudo, entendam meus amigos, na verdade, haviam outras paixões que atraiam-lhe os sentidos. Por exemplo, participava desde muito novo da Liga dos Valores Morais e Éticos da Família, onde era visto como um grande entusiasta da preservação dos reais princípios. Quando provocado, o ar inflava-lhe o peito e o tímido abria caminho para o prolixo. Hablava mui bem, sem desfigurar sua plácida expressão ou veia sequer saltar. Guardava argumento para tudo e todos, e sabia que por esta habilidade com as idéias era, por muitos, admirado e reconhecido, sendo interceptado nas praças e cafés, sempre que imaginavam sua opinião válida em polêmicas de proporções mínimas ou até em questões municipais.

Não se queixava de tal status. Nos bailes, muitas vezes, era cercado por curiosos e fiéis ouvintes, ávidos por sua opinião sobre conhecidos que deixavam deselegantemente suas intimidades expostas à enxerida platéia de fofoqueiros de plantão. O interesse momentâneo era tanto que esqueciam da banda e dos mais recentes passos de polca para ouvi-lo. Alberto não se aborrecia daquilo, mas quando fitava no salão um hábil cavalheiro conduzindo a dama que fosse com delicadeza e fluência, com gestos sutis e precisos, sem grande estardalhaço ou exibicionismo, e sim, a medida exata dos passos... Ah! Isto lhe dobrava as tripas, contorcendo-lhe as entranhas de inveja imensa e infinita.

Naquele instante de imagem em lenta evolução, aquela simples cena passava despercebida na pobre percepção daquela gente de alma pequena e pobre, que lotava os bailes atrás de preencher sua existência vazia com qualquer algo que não o realmente belo. Aquela singela cena era tudo que Alberto não podia ter, e este fato dava um peso insustentável às asas daquele jovem ali imobilizado, prendendo a respiração a cada rodopio, a cada enlace de pernas, até se sufocar vendo o corpo feminino - mais que perfeito - suspenso pela cintura e devolvido ao chão com uma pluma. O pescoço que, então, não suportava mais o peso da cabeça, envergava como galho que não se parte, mirando os sapatos pouco sujos de lama, decretando o fim de baile.

A triste versão dos fatos era que Alberto não dançava, porque não o sabia. Porque tinha as pernas tortas - joelhos apontados um para o outro, enquanto os pés não se davam e insistiam sempre em extremos opostos - e um quadril duro, que não se movia independente. Era todo um corpo duro e desajeitado, guardado havia anos a beira do salão. Corpo moço se insistindo velho, aceitando a não-dança como pena perpétua. O corpo já havia desistido e batido o martelo desta questão. A cabeça não.

A feliz versão dos fatos era que - adivinhem meus caros amigos - Alberto quando com a cabeça no travesseiro fazia fila de moças para acompanhá-lo a dança. E cada uma não passava de simples adorno para a exuberante exibição dos bem executados passos de Alberto. Manhãzinha o sonho lhe vinha como uma ressaca que não cessa. Triste era Alberto nesta hora. O sapato não lhe cabia e o pescoço rejeitava um nó de gravata bem feito. Encarava a si no espelho e não havia brilhantina ou navalha que desse jeito naquilo. Estaria impecável, não fosse por aquele olhar. Aquele olhar que acompanhava Alberto o dia todo, se escondendo no canto dos olhos. Olhar de espírito incompleto.

Quando não estava a estudar as leis - desculpem este desatento narrador, eu não havia dito antes, mas, as leis eram a outra paixão de nosso protagonista. Alberto se ocupava de pequenos casos num escritório abafado e quente de despacho. Cercado por pilhas e mais pilhas de pastas, passava perdidas horas de seus dias tentando facilitar o andamento dos processos. Vez ou outra perdia alguns minutos desfilando seu repertório de argumentos para dar ânimo a pobres infelizes que sofriam das incapacidades da lei. Mas em outros dias, nos de desânimo, tomava-lhe o silêncio e só desejava paciência, a mesma que lhe era imposta, aos que lhe desviavam um olhar marejado de vítima do sistema. Se há vítima nesta estória, se há alguém em clara desvantagem, essa persona há de ser Alberto, privado da dança, sua secreta alegria.

O tempo passou e com ele vieram as mudanças que cabiam. Alberto já doutor não se casara, para espanto geral da cidade. Recorrente era a versão de que nenhuma menina o despertara interesse, que por mais que ali houvessem moças prendadas, o coração do agora Doutor Alberto queria alçar vôos maiores. Os anos lhe trouxeram um semblante sóbrio e triste. Dono da palavra, ainda era hábil em comunicar suas opiniões e se fazer respeitado. Mas que graça havia nas acaloradas discussões se já não se faziam bailes como antes. E ocupado que só ele, dar-se ao luxo de gastar seu precioso tempo de doutor em praças, em plena luz do dia não iria de lhe cair bem.

Foi se tornando um homem fechado. No silêncio de seu quarto ainda era capaz de desejar, almejar a dança que lhe foi negada. Via e revia cada passo, tinha sua coreografia mentalmente planejada. Rodopios e saltos tornavam cada vez maior sua atuação. De tão extenso que se tornaram os atos de seu espetáculo particular, haviam noites em que Alberto já não adormecia. Dias de trabalho que eram sacrificados.

A chocante versão dos fatos, meus caros leitores, é que nosso exemplar protagonista padecia aos poucos. De tanto repreender seu espírito, este se encontrava assolado por um grande tormento. Esquecia-se de compromissos importantes, até audições com juízes. Marcava em sua agenda tarefas sem pé nem cabeça. Espantava-se consigo mesmo. Via o próprio declínio e não continha os passos. Alguns amigos próximos sugeriram descanso. Estes inconvenientes haveriam de ser trabalho em excesso. Aceitou a proposta que já era cantada em coro. E aí meus amigos, aí Alberto decretou o próprio fim.

Se antes o trabalho ainda lhe tomava algum tempo e pensamentos, agora com a agenda livre, com esta temporada toda vaga, Alberto desatinou a ocupar-se integralmente de seu grande espetáculo interior. Imergiu-se no devaneio da dança e já não respondia a estímulos exteriores. A família desacreditada já estava possessa. Era caso de internação.

O dia em que os enfermeiros vistosos, todos de branco, adentraram o decrépito quarto de Alberto, ele tomou-se de uma animação repentina. Sequer resistiu. Disse aos inconsoláveis parentes que o primeiro corpo de bailarinos havia chegado, que tão logo, o mais breve possível, seu balé estaria formado. Foi sedado, preso a uma camisa de força e levado para o manicômio municipal.

Quando as primeiras semanas de tratamento de choque cessaram, Alberto pôde, pela primeira vez, ter contato com os outros internos. Suas idéias sobre um grande corpo de balé, sobre uma obra tão bela que haveria de mudar os rumos da dança não encontraram empolgação alguma, nem mesmo entre os danados de bom senso. Solitário mais uma vez, Alberto não abandonava mais o leito, e para a enfermeira que todos os dias vinha lhe aplicar uma série de injeções, Alberto guardava um sorriso e o convite para dançar.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:02:01 PM


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Março 1, 2007
"Leonardo, você está no caminho do vício"

Minha avó não me desejou um 'bom dia', mas me diagnosticou um câncer logo pela manhã. Segundo sua vivência - leia-se experiência de vida - quanto mais cedo se saboreia um cigarrete, mais cedo se amarga um câncer. Meu avô, seu finado marido e ávido fumante, não viveu o suficiente para comprovar tal maledicência, Lhe atacou antes o coração. Coração este que, durante os 39 anos de sua breve vida, se dividiu entre o amor de tantas mulheres. Me convém dizer que Seu Natanael padeceu por não lhe caber tanto amor no coração, que inflou ao ponto derradeiro do enfarte.

Se foi meu avô e lhe ocupou o posto meu pai. Hábil amante, porém fiel companheiro, meu pai não pretendeu a vida conjugal múltipla, talvez prevendo desfecho semelhante ao de Seu Natanael. Aos 39 anos, 10 de casamento, Seu André - como ainda não lhe convêm chamar - se desviou do caminho de perdição de seu pai.

Diz minha avó, que entre poucas e boas, seu finado esposo se iniciou na boêmia aos 14, contabilizando casos dos mais variados, nem tão assombrosos. Vivia entre mulheres não-sérias. Mulher casada dando trela? Batata. Não lhe havia golpe que não desse certo. Porém casou-se aos 20, morando ainda na casa dos pais. Enganou-se quem esperava que ali morreria um boêmio e nasceria um pai de família dedicado.

Natanael Trindade era magro. Tinha cabelos longos e desgrenhados, com habituais entradas a lhe invadir o perímetro do couro cabeludo, lhe conferindo o charme não-chulo dos conquistadores. Não era um desses tipos bonito. Mas diz minha avó que não havia gênio como o dele. Tinha firmeza e virilidade, as entranhas reforçadas. Foi sim um pai dedicado, trabalhou muito pela família. Ergueu casas com as próprias mãos. Só não lhe abandonou os costumes de quando solteiro.

Quando morreu aos 39 anos de ataque cardíaco fulminante, em plena recepção do hospital, após ter percorrido três quarteirões enfartando, meu avô não morava mais com a família. Após anos de infidelidade, minha avó se cansara. Não quis mais saber daquele homem de hábitos antiquados. Já eram os anos 80 e a família que começou num beliche tinha casa, carro, geladeira, TV, som...

Depois do velório minha avó foi cuidar de arrumar o que restara de seu morto. Encontrou cartas destinadas às amantes, fotos, relatos de uma vida repleta de amores. Reuniu tudo e ateou fogo. Entre as lágrimas de esposa traída via fumaça e cinzas do amor de um homem que não fora só dela.

Ainda hoje, entre lembranças e um quase-devaneio, desses que a saudade inspira, ela suspira que 'nunca houve homem igual'.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:01:44 PM


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Fevereiro 5, 2007
#101#

São pouco mais de 2 horas da manhã. Há certa urgência em minhas entranhas, uma inquietação que faz com que o silêncio estabelecido ao longo dos últimos dois meses se quebre. Silêncio rompido me ponho a estabelecer sinuosas linhas sem regras ou objetividade. O sangue que em minhas artérias pulsa se encontra turvo e vacilante. A insônia me tirou da cama após duas horas de um exercício continuo de rolamento. Se de um lado um dor no pescoço me impede de alcançar o sono, do outro são essas idéias que me incomodam. A perturbação é tamanha, que nem me dou conta de que só adormeço de barriga pra cima e que esta posição nem fora praticada.

Pouco mais de 2 horas da manhã e meu coração está lá fora, perambulando pela noite, incerto. Tomado por sereno e asfalto. Pela violência que nos impusemos. Penso nisso agora. Por que diabos gastamos tanto tempo nos mutilando? E por que diabos nossos caminhos se cruzam nessa trilha de auto-depreciação? Vou adormecer sem respostas. Para o resto de meus dias e para além da minha existência.

Ah coração.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 3:33:17 AM


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Dezembro 11, 2006
# 100 #

Pensando consigo mesma, na manhãzinha que lá do fundo da colina vem chegando mansa, sente que bem lhe cairia os 100. Por mais que tempo ainda falte. É afeita à idade avançada e às chinelas de pano, que mais por mania de velha do que necessidade vivem sendo remendadas.

Prepara a água do café e esquece o bule sobre o fogão de lenha. Desfila seu andar arrastado até a varanda da Casa Grande donde observa todas as manhãs, no mesmo horário, a propriedade rural. Com os olhos castigados pela catarata mede - forçando a vista - a altura da plantação, já enfeitada de vermelho e calcula os dias para a colheita do café. Sente uma dor pontual como que por dentro dos ossos. A água ferveu.

O velho coador de pano resiste ao tempo, como todo o resto da casa. Todo dia santo ela acorda cedo, antes mesmo que os empregados. Costume antigo que carrega desde sinhá mocinha, quando casara de véu branco, esperando em segredo o primeiro filho - o que viria a ter nome de doutor. O mais novo se perdeu no mundo, e costuma surgir na Casa Grande de quando em vez, contando novos endereço, trabalho e mulher.

O marido e senhor das terras era homem bom. Sabia ela do seu costume de ter em segredo com as empregadas, com quem amava atrás das portas. Porém, amante também de boa água-ardente, nunca encostara um dedo ou sequer a ofendera em tantos anos de casados. O levou aos céus o fumo que não cansava de enrolar ao longo do dia.

Dormir pouco nunca lhe incomodou. Agora, velha que só ela, dormir menos ainda é um alento. O cheiro do café começa a subir e infesta a casa. O sol que do leste surge, se alevanta por trás da serra e cumprimenta o homem do campo que inicia a lida ainda madrugada. Toma o primeiro gole de café na caneca de ferro, pintada em tinta esmalte e toda descascada.

E olha pra vida. Vida olha pr'ela. Bem lhe cairia chegar aos 100.


Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:52:04 PM
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# 0099 #

Há quem defenda que a noite, ou a madrugada - sua extensão natural - seja o melhor momento para a concepção. Eu declaro minhas atividades de abstração terminadas e percorro o pequeno apartamento de três quartos totalmente às escuras. Sento-me na cadeira de plástico da sacada e intercalo o sabor de um West com goles mínimos de café. Observo o mar sumir na noite escura e o horizonte raso nublado pela maresia. Por conseqüência acho natural expor algumas das idéias que passeiam por minha cabeça, o que me leva a crer que a primeira frase deste texto se ajusta ao meu momento como uma luva bem calçada.

Enquanto meus olhos se perdem no negro eu confronto meus presentes demônios. Vejo minha pálida figura unida á uma mesa oval com todos estes diabos. Contas atrasadas, indefinição profissional, problemas amorosos e dívidas pessoais. Tenho comigo que estas questões acometem 11 entre 10 pessoas de minha geração, e logo vejo, com maior clareza, que estes demônios não estão por trás de minha inquietação. Minha inquietação é genuína, me acompanha do berço.

Minha inquietação atravessou minha infância, estava presente em todas as brincadeiras solitárias e me acordava durante a noite, quando insone eu me aproxima da grade da janela e observa o céu. Minha inquietação estava presente quando meu pai percorreu o estreito caminho de terra que cortava o mato e a horta de minha prima-avó Maura, se agachou ao meu lado, e, com compaixão, me explicou sobriamente que meu primeiro irmão - Gabriel - havia nascido com um problema no coração e por isso não resistira.

A mesma inquietação me fez prestar maior atenção à barriga de minha mãe meses depois, quando Gabriela já estava encaminhada. E me acompanhou até o quarto do Hospital Evangélico, junto com minha tia Adrí, quando Gabriela nasceu e eu a segurei pela primeira vez.

No ano anterior minha inquietação havia feito com que eu relutasse num choro alto a mudança de colégio na porta de minha nova sala de aula. Estava ela ali quietinha, enquanto que todos os outros alunos fitavam espantados e curiosos o novo colega de olhos vermelhos e rosto inchado. E minha inquietação se fez escudo quando no recreio os mesmos colegas tentaram me agredir sem sucesso e descobriram um bom amigo. Surpresos foram os olhares em casa quando me viram empolgado para o próximo dia de aula.

Durante toda puberdade e primeira metade da adolescência minha inquietação explodia em rompantes de genuína rebeldia. Escorria-me junto ao suor provocado pelo excesso de hormônios e me afastava do pavor que me causavam as meninas. Fazia com que eu perdesse noites revirando os lençóis, no ingênuo e autêntico exercício de idealizar o amor. Engolia-me as palavras e me isolava em amores à moda de Platão.

Durante todo o processo criativo, compondo canções, tecendo linhas de raciocínio em textos, desenvolvendo campanhas publicitárias, minha inquietação sempre esteve presente. E nessa madrugada de domingo para segunda-feira ela me mantêm acordado, e, por conseqüência, me mantêm fiel a minha essência.

Se estou sentado em uma das cadeiras de plástico da varanda, minha inquietação me acompanha, ocupando a outra cadeira. E se por um momento eu pareço me preocupar com todos estes problemas do cotidiano, minha inquietação sorri para mim serena e se oferece para velar a noite silenciosa.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 2:55:17 AM


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Dezembro 10, 2006
# 0098 #

Eu peguei esse costume de dizer que "saudade é felicidade abafada, futura". Em algum momento de inspiração Cazuza escreveu isso. Passaram-se anos e o Lobão resolveu musicar estas palavras. "Agora que a seda já não me atrapalha os movimentos e nem me aperta os sapatos" eu penso nesse sentimento de saudade. Saudades de algo que eu nem bem sei o que deveria ser. "Ah, mas é que falta alguma coisa faltar pra vontade surgir". Me parece que o Jumpers e suas melodias folk tem a resposta. O Sparklehorse canta "It's a wonderful life" e eu quase acredito nisso enquanto o carro cruza a noite densa, os postes luminosos e o cheiro de fossa exposta. Amigos e suas cervejas no bar são sempre todos cheios de respostas. Parece que a vida acompanha esse fluxo das palavras despejadas sem perdão em conversas paralelas, que, meio que sem querer, acabam por formar um muro espesso a me proteger do mundo que circunda a mesa de plástico.

Nunca tive medo de ficar sozinho. A solidão é uma marca inerente a minha família e seus costumes e manias tão particulares. Claro que todas as famílias têm suas manias. Claro que todas as famílias são parecidas demais. Engraçado, hoje senti muita falta do velho Duda. Da noite em que a gente andava até o carro, pra depois fazer o longo percurso até o seu refúgio. Ele contava todas aquelas coisas e eu me identificava com várias delas e de resto me sobrava admiração. Cumplicidade ali naquele momento nosso e singelo. As pessoas falham ao longo da vida. Escolhas erradas, caminhos errados, às vezes sem volta. Mas por mais que isso aconteça, elas não falham com sua essência. E é dessa essência do seu Eduardo que eu sinto falta.

E que coisa... Divaguei aqui e essa falta ainda preenche lá no fundo. É que faz falta alguma coisa faltar pra vontade surgir.
Faz.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:32:06 AM


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Dezembro 9, 2006
# CRÔNICA musicada 0097 #

Anti-Herói (parte 1)

Tranque a porta que eu já ouvi barulho lá fora
pode ser que queiram roubar a minha moto nova
e queiram te violentar mas isso nem importa
é bem a cara desse mundo
você só deve olhar pela janela
e de repente eu pensei
"que puta morte bela
se eu morrer pra defender os bens
que eu comprei a prazo e a prestação
e fingir que é teu meu coração!"
fingir morrer por nós
mas, não, eu mato o ladrão
e você agora me tem em devoção
a mim! Um lambedor de chão!
que nem sei beber
sem te meter a mão


by Beto Cupertino, retirado do disco ainda inédito do Violins, "Tribunal-Surdo".

Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:55:41 PM


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Dezembro 5, 2006
# COTIDIANO (o meu, não o do Chico Buarque) 0096 #

Acordo com o corpo pesado. É difícil abrir os olhos (...) Jogo água no rosto, os cabelos me caem nos olhos. Ajeito o cabelo para atrás com as mãos molhadas. Nada os detêm.

Sento à mesa do café e encho minha xícara. Tendo decifrar o programa de tv. Me levanto e desfaço a mesa do café, não sem antes encher mais uma xícara do líquido preto e quente.

Sento-me ao computador para checar e-mails e mensagens, o desempenho diário dos sites de música e xeretar a vida alheia. 10 minutos e já estou saturado. Eu ainda tenho umas 14 horas pela frente e nenhum plano, nenhuma tarefa ou perspectiva.

Uma saída para o estúdio (estas estão cada vez mais recorrentes), uma cerveja no bar (estas cada vez mais necessárias) e cá estou eu de volta a repetição do corredor de alvenaria e do sem número de cores do apartamento.

Hoje mais uma vez vou dormir sem saber o que me espera amanhã. E mais uma vez meu corpo vai pesar de manhã, e quem sabe alguém me convida para ir ao estúdio ou a um bar e assim a vida vai seguindo. Sem alarmes e sem surpresas.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:24:49 AM


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Novembro 25, 2006
# CATARINA 0095 #

como chegar devagar sem causar
danos maiores ao que está aos cacos?
quero montar, reunir os pedaços
tirando a poeira do porta-retratos em que estamos

nem tudo saiu como foi planejado
eu reconheço, é minha culpa
mas eu sei que somos iguais quando vejo o seu andar
e o seu jeito de falar também é igual ao meu
eu só espero que você não seja tão cabeça dura quanto eu

oi, como vai minha filha? há quanto tempo
eu só queria poder dar um olá, mas as palavras não me saem mais
ah, quanta coisa aconteceu, veja só, você cresceu
e por si só se fez mulher, e tem sonhos e irá ser mãe também

e nem tudo irá sair como você planejar
mas não será sua culpa
e eu sei que somos iguais quando vejo o seu andar
e o seu jeito de falar também é igual ao meu
eu só espero que você tenha mais coragem e fibra do que eu


Uma briga entre mãe e filha por telefone em Londrina, além de uma pendenga familiar pode se tornar uma música. Espero que minha mãe e minha irmã se acertem...
Escritos de um desconhecido autor publicado às 3:44:32 PM


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Novembro 23, 2006
# MACEIÓ SPLENDOR 0094 #

Andar de um lado ao outro da casa. Andar de um lado ao outro da casa durante 24 horas. Esta não é minha atividade predileta, mas foi a que me restou com o término de minha viagem pelo sul do país. Minha viagem - tenho de ser realista - não foi a oitava maravilha do mundo moderno, houveram dias tortos e problemas familiares dos mais variados. O ser humano está sempre tentando se superar no que diz respeito a reduzir os relacionamentos a um mínimo de comprometimento. Confesso que há um tempo atrás isso me incomodava muito. Hoje faço pouco caso, tenho meus próprios problemas para ter de me sensibilizar com obstáculos que meus parentes e pessoas próximas criaram para si mesmos.

O motivo, o gatilho que me trouxe até a mesa do computador para escrever um pouco, ao invés de me dedicar a tantas outras tarefas alienantes, foi que eu estava lendo ao Harvey Pekar e o esplendor americano. Harvy se dedicava a sua revista assim como eu e milhares de pessoas se dedicam a seus blogs. O outro motivo impulsionador é o Radiohead no fone de ouvido, interpretando as suas canções lado B e raridades que pouco devem às músicas que estão nos seis álbuns da banda. American Splendor e a música do Radiohead me levam a esse local de abstração, onde eu consigo colocar algumas idéias para fora e olhar lá dentro. Bom seria sair esparramando minhas entranhas em um punhado de lamentações pequeno-burguesas, mas isso não é lá do meu feitio.

Escrevo mesmo para matar o tempo. Não se enganem, o tempo não está me matando e eu não ousaria, sequer, cogitar o uso de um clichê tão canhestro. O tempo me mantém vivo e é minha bússola. Escrevo para codificar um tanto de sentimentos que me incomodam as costelas e para criar um ar de ciúmes para o meu ócio. Ele que está logo ali me esperando, olhando de soslaio como que querendo fazer pouco caso, mas se mordendo por dentro, porque o abandonei momentaneamente. Pobre.

Acho que esse punhado de palavras é suficiente para ilustrar está página com algo de recente, não que este texto irá cheirar a novo. Ao menos não serão as mesmas letras que cansam os olhos curiosos. Um pouco de matéria reciclada do coração não há de fazer mal numa altura dessas, não quando o blog está prestes a completar 4 anos e tanta coisa já foi despejada impiedosamente aqui.

Leiam e em seguida abstraiam, por favor.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:03:27 PM


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Novembro 17, 2006
# BLOG ON THE ROAD: impressões jogadas de forma nada lírica 0093 #

longe de casa e perto do mundo
tanta coisa, tanta vida correndo paralela
meus olhos se cruzam com ela, a vida
uma piscadela e tantas propostas explícitas
saí pra passear e ver a terra avermelhada
ver as pessoas brancas e amargas
sentir o amor frio e o dia longo
tarde intermináveis de horário de verão
novela na tv, chope gelado no bar
cerveja uruguaia de um litro, nada passa em branco
as garotas são bonitas sim, as mulheres mais ainda
os shoppings estão lotados e o dinheiro cobre as ruas
aqui os pinheiros são compridos e a copa fica lá no alto em elipse
e eu vi o olho do niemeyer sobre as águas plácidas
e tem tanta coisa pra dizer em prosa e eu uso o verso
porque tudo passa tão rápido pela janela do carro
pela janela do avião, que é difícil registrar tudo, falar de tudo
então eu jogo as idéias assim, em frases curtas e desconexas
da mesma forma que meus olhos registram as ruas e pessoas
e agora chove e o cheiro da terra vermelha sobe
e já já eu vou no bar do alemão tomar o bom e velho chope
não sei se vou provar a salsicha
salsicha não me faz a cabeça.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 6:17:37 PM


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Novembro 10, 2006
# BLOG ON THE ROADIE: primeira música em londrina 0092 #

são os dois ainda juntos
dois corpos ocupando o mesmo espaço
a tarde que quer terminar
e o amor feito sem pressa alguma
um passeio pelos teus seios
desfaz todo e qualquer receio
uma olhada em tuas coxas
que me convidam as pernas tortas
a participar do amor simétrico

não, não há nada perfeito
que se pratique além do leito
só aqui se fez refugio seguro
para as promessas em sussurros
todo amor que jaz em meu peito
forra minha cama agora
quando a febre e o devaneio
me trazem você de volta para inflamar
mais uma noite de insônia.


Bom, esta semana passei muitos dias em casa sozinho, fazendo exercícios, ouvindo chico buarque, tomando café e relendo o Mãos de Cavalo, que oportunamente adiquiri aqui em Londrina, local de lembranças que ilustram tão bem as passagens do livro. Um livro que parece ter sido escrito para os homens da minha família. Todos carregam a mesma marca da solidão inerente à própria condição de existência. Numa dessas tardes eu peguei o violão, fundi "Perfect Day" - um título bem sugestivo - do Lou Reed com algo como "Detalhes" do Roberto Carlos, mas claramente inclinado para algo musicalmente mais próximo do Erasmos Carlos - que é mais interessante. O resultado foi uma estrutura bem simples, uma melodia delicada forrando caminho para essas lembranças tão recentes que ainda vem a minha cabeça. Esta é minha "Óde à Cama".
Escritos de um desconhecido autor publicado às 9:54:19 PM


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Novembro 1, 2006
# BLOG ON THE ROAD: E na hora do jantar... 0091 #

Sento-me para comer. Sirvo-me do que tem à mesa. A cada paciente garfada a mesa se move, hora para um nível inferior, hora retornando a posição original. A mesa se move como a prancha de um skate, só que suspensa por dois pés centrais, cada um concentrado em uma extremidade do retângulo. Cada pé da mesa deveria se ramificar em quatro apoios, mas basta um breve olhar para notar que em cada pé só existem três. Dessa forma, uma simples refeição se torna um exercício de equilíbrio tanto físico quanto mental. Pronto. Você acaba de ser apresentado à mesa da casa de minha mãe.

Intrigado com a origem do velho móvel e sua característica singular indaguei a minha mãe, parte irônico, parte revoltado, de onde haveria de ter saído aquele objeto de quase vida própria. Ela, como que com os rabos entre as pernas, não escondendo o embaraço levantado pela questão me responde que veio de uma feira de usados. Eu replico se a mesa já vinha com esta peculiaridade e ela me responde com um olhar cômico que sim.

(...) Eu amo minha mãe(...)


Escritos de um desconhecido autor publicado às 9:58:09 PM


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Outubro 31, 2006
# BLOG ON THE ROAD: Jesus salva... 0090 #

Ao entrar no pequeno apartamento de três quartos percebi que algo além de tempo havia passado. O espaço já não era o mesmo que habitei em dias distantes de solidão. Tudo me parecia velho e decrépito. Mal-cuidado. Móveis velhos que não existiam ali antes ajudam a aumentar essa sensação. Sentei e conversei com ela, minha mãe, sobre a vida e sobre porque a casa estava em ruínas, com o piso de azulejos todo quebrado, persianas partidas pela metade, mesa e estantes velhas, capengando, no lugar dos móveis bem conservados de outrora. Ela me disse não saber o porquê. Logo entendi que a família vivia ali apesar de. Sem se preocupar com o acúmulo de entulhos ou um azulejo a menos no chão. Tão pouco um quarto com as paredes todas rabiscadas e sujas pela ação de meu irmão menor.

Nada mudava a rotina que se seguia. Primeiro veio a consternação, em seguida a compaixão e depois de alguns dias, depois destes dias pensando, decidi por não interferir em nada. Minha mãe e seu marido têm idade o suficiente para julgar as próprias prioridades. Passei a abstrair todos os cacos e me concentrei nas relações afetivas com ela, minha velha e meu pequeno irmão.

As noites de final de semana rendem episódio a parte, mas de tão vivas em minha memória, ainda não encontram espaço no mundo concreto das letras editadas em cinzenta página, permanecendo coloridas e intensas em minha mente. Talvez com o tempo e distanciamento mínimos eu consiga relatar de melhor maneira tão boas lembranças. Me basto em dizer que reencontrar os amigos de colégio, de fato minha primeira turma de amigos da adolescência, foi magnífico. Uma noite de gala.

Decidi escrever porque vejo que meus dias vão se prolongar por aqui. E o irão pelo simples fato de que eu não tenho sérios motivos para voltar correndo para casa. A não ser a falta de dinheiro. Esta eu ainda estou vendo como contornar.

Deixo aqui duas preciosas dicas de entretenimento com a atual produção artística nacional:

Cinema - O Homem do Ano; assistam aos filmes dos anos 70 com o De Niro e digam se o Murilo Benicio não o interpretou a sua maneira.

Literatura - Mãos de Cavalo / Daniel Galera; autor da nova safra que vale a pena ser lido pelo simples fato de não tentar ser mais um Nick Hornby de Porto Alegre. Quem gosta de literatura pop vai adorar os parágrafos de duas páginas que o Daniel faz.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:28:08 PM


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Outubro 18, 2006
# BLOG ON THE ROAD: Não voe gol... 0089 #

Desaprendi a ter família. Depois de alguns dias longe de casa está é minha grande conclusão, minha constatação sombria. Mas alto lá. Estou adiantado por demaisnesta estória. Até eu ter de reconhecer esta nova realidade algum chão se foi.

Ainda é Maceió, último lar para os meus devaneios. Ainda estou Eu em um botequim, bebemorando com meus amigos, a poucas horas do derradeiro embarque. Com certeza meus companheiros protagonizaram uma despedida calorosa. Fartos copos de cerveja e conversas para toda a madrugada não faltaram. Na verdade segunda despedida. Dois dias antes tentaram se despedir de mim sem sucesso. Esqueci minha identidade e não embarquei. Ando me anulando em muitas coisas, sabotando meus próprios passos.

Caminho assim distante, errante pelo solo desde que me dei conta, desde que me caiu em mãos a ficha corrida de minha condição atual. Ex-namorado, ex-band leader e ex-funcionario. Todos os laços afetivos com os quais eu me ligava ao mundo externo momentaneamente se desataram. Sobraram-me a boa companhia dos amigos e um humor fino para a auto depreciação. Eu realmente não estava preocupado com aquela bendita identidade.

Pois bem, após o primeiro e frustrado embarque uma seqüência de acontecimentos alterou meu itinerário. Não iria mais a Londrina neste primeiro momento e não viajaria mais sobre minha própria miséria. Agora Campo Grande e minha avó estavam inclusos na bagagem. Adriana, irmã mais velha de meu pai e uma de minhas mães não passava bem. Coração. Correria para comprar bilhetes aéreos e muita preocupação junto com as malas.

Após toda a bagunça no saguão do aeroporto, me descobri tenso no interior do avião. Tremi a viagem toda. É ótimo viajar após um desastre aéreo. Ainda mais quando o piloto não tem permissão para aterrissar por causa do nevoeiro que cobre a pista do Aeroporto Internacional de Guarulhos, fazendo com que o avião voe em círculos
pela estratosfera, até ter permissão para pouso depois de trinta minutos de angustia a quarenta mil pés.

Aterrissamos em uma fresca manhã de outubro na paulicéia. Agradável foi a sensação de se perceber em solo firme. No café da manha reparei o quão descuidada estava a cafeteria que cobrava um preço abusivo (como tudo no aeroporto) por qualquer produto. Logo percebi que o aeroporto mais importante do país estava um tanto sucateado, velho, decrépito. Então me veio a óbvia constatação de que a mesma democratização das linhas aéreas que tornou as viagens de avião comum aos menos afortunados, também tirou todo o seu glamour. Este foi enterrado junto às dividas da Varig. É claro que este abandono não se aplica ao novíssimo aeroporto de Maceió e nem ao tradicional e recém-reformado aeroporto de Congonhas, ambos agradabilíssimos. Estes apontam para um mundo moderno sem o ranço de um imperador
falido.

Ops! Estávamos a caminho de Campo Grande e eu aqui me perdendo nas palavras, divagando sobre todos esses pormenores. Sem mais delongas, vamos para Campo Grande agora.

Chegamos ao "aeroporto de bolso" da cidade numa tarde quase nublada dum feriado local, véspera de feriado nacional. Plaquinhas com nomes disputam espaço no saguão de desembarque a espera dos passageiros. De certo para chamar a atenção de turistas a caminho do Pantanal ou seus pares locais de igual beleza, especulei eu naquele momento. Ok, o vôo não foi dos melhores. Uma hora e dez minutos de turbulência, uma aterrissagem brusca e estávamos definitivamente fora de Maceió e
do nordeste. Minha primeira impressão é a de que estar longe de casa é meio chato. Não se excedam, vou explicar o porquê.

Rever a família é ótimo. Perceber que você resumiu quatro anos da sua vida em uma única frase é péssimo. Bom, eu danço conforme a música e busco interagir. Brinco com os primos mais novos e converso com o resto das pessoas sorrindo como se nunca tivéssemos passados um dia sequer separados. É nessa calmaria aparente que mora o real perigo das relações familiares. Todos têm sua vida independente do que você faça ou deixe de fazer e depois de algumas horas ficam mais que claras as diferenças. Todos têm suas carências e frustrações e acabam se aturando por motivos obscuros, afinal somos uma família como qualquer outra.

Estou em Campo Grande. Há alguns dias Cá, Hugo e César se despediram de mim no aeroporto em grande estilo, só para que eu sentisse saudades de casa e resolvesse não abandonar o lar. Em minha primeira investida, pleno feriado da padroeira do país, minha adorável prima Ana Paula me a apresentou ao tal bar que tem sinuca e banda de rock ao vivo. De acordo com minhas pré-especificações o bar poderia ser um lixo, desde que a cerveja fosse gelada e barata. Pessoas sem graça se amontoavam nas mesas de Snook, enquanto que no palco bandas previsíveis entoavam novos hinos juvenis, como "Proibida Pra Mim". No fim de noite inventei de experimentar uma certa erva local e acabei beijando o asfalto. Minha pressão baixou de súbito e eu dei vexame em minha estréia sul mato-grossense. Maravilha. Um dia para me recuperar da queda livre - ainda tive uma pior na piscina - e um sábado para fazer um passeio light. E chato, com um T bem grande no tédio.

Engraçado. Descobri que Campo Grande é uma cidade bem maior do que eu pude remendar na minha memória anteriormente, e um tanto mais peculiar. A cidade é tudo, menos cosmopolita. A maioria de seus habitantes ainda prefere as casas - e boas casas - ao invés da modernidade proposta pela vida em apartamentos apertados, como em qualquer capital cosmopolitana. Os poucos prédios que enfeitam a cidade ensaiam um movimento que representa o progresso econômico local, com seus de 30 andares. Temos aqui um grande planalto digno de estudo. Avenidas largas, nenhum sinal de engarrafamento. Aqui, esta prática tão corriqueira nas grandes cidades é impossível. Nenhum menino no sinal, nenhum miserável. Com dificuldade se vê um pretinho. Essa na verdade é uma terra de índios. Índios e um bando de caipiras tranqüilos quanto a essa condição. As pessoas aqui têm orgulho de assumir esse pé na terra, o que é bom. Seria péssimo ter um bando de caipiras que se acham descolados.

Domingo, até o presente instante, foi o dia do programa mais agradável. O tio-avô Mané - o mesmo que nos pegou no aeroporto e o mesmo que abandonou Londrina aposentado para redescobrir a vida quase aos sessenta no Mato Grosso do Sul - nos apresentou uma boca legal. Um barzinho de choro, no quintal de uma casa. No local haviam alguns coroas como ele e um bando de jovens ditos descolados, pessoas ligadas as artes daqui. Música - leia-se samba e choros antigos de cortar o coração de tão lindos - ao vivo de primeira qualidade, lugarzinho aconchegante e marginal para bater ponto todos santo domingo.

Uma das coisas boas daqui é a cerveja Itaipava. Se der encho a mala de volta para Maceió.

Aos que ficam, aquele abraço. Daqui uns dias conto mais desses dias
distantes. Cambio desligo.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:13:15 PM


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Outubro 5, 2006
# BLOG ON THE ROAD: aquecimento 0088 #

Decidi fazer a seleção oficial de minha trilha sonora para a viagem que se aproxima. Aparentemente esta seria uma tarefa fácil, já que estou estão habituado a fazer seleções sonoras aqui no player do pc. Não foi bem assim.

Tendo a disposição quase 100 álbuns em mp3 e mais de 100 discos em casa, como diabos seria fácil essa tarefa? Primeiro resumi cada artista da lista de mp3 às suas melhores músicas. Segui um por um até terminar a lista. Resultado: o tamanho total do arquivo ficou superior a capacidade do mp3 player. Maravilha. Lá vou eu enxugar a lista. Corta dali, corta acolá, tirei o que era dispensável, o que eu sabia que não iria ouvir mesmo. Tava pondo ali só pra fazer volume de música boa. Só pra me amostrar. Tsc.

Depois de umas três enxugadas os discos vão caber no cd. E ainda sobra um espacinho para que eu coloque o Clube da Esquina, o Racional do Tim Maia e a Refazenda do Gil. Eu acho. Espero que dê.

Mais cedo fui ao shopping atrás de coisas que não podem faltar: cuecas e meias. De preferência naquelas embalagens plásticas pra ocupar menos espaço na mala. Comprei também umas camisetas sem estampa pro dia a dia, incluindo uma que parece que alguém usou durante anos e colocou a venda. Essa camiseta estava toda amarrotada lá na arara com aquele aspecto de gasto, sem passar. É claro que essa camisa era o dobro do preço das outras. Moda. Bah! Eu deveria ter perguntado pra moça qual foi o astro do rock que usou a camisa durante anos pra ela custar o dobro das outras se parecia mais velha, mas sabe como é, você prova a camisa, se olha no espelho e se vê o próprio astro do rock. Nós estamos todos abertos a cair nas armadilhas do consumo. Poderia ter levado uma camisa a mais e levei a que me fazia sentir um rockstar. Valei-me.

Segunda estou partindo. Deixando um monte de coisas indefinidas para trás. Espero que os dias de estrada indiquem novos caminhos. Que clichê. Como tudo na vida.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:06:18 PM


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Outubro 4, 2006
# TODO esse meu apego 0087 #

De tentar abrir o peito, de tentar botar pra fora, tudo - mas tudo mesmo - fica aqui dentro queimando feito azia. De tentar projetar o queixo, estufar o peito e seguir, só aumentei esse desânimo. Cabisbaixo. Cabelo cai no rosto, cobre os olhos e eu mal vejo, tampouco ligo e assim vão passando os dias.

Queria só ter um abrigo, mas aos poucos tudo que me era familiar, tudo em que eu punha um tanto de mim se desfez. Agora é só essa azia. E um aperto tão grande no peito, desses que sufocam a fala, desses q fazem uma lágrima correr fina a extensão do rosto.

As pontas dos dedos vão correndo o teclado, o pensamento vai vacilando na cabeça e eu escrevo. Escrevo como quem grita dentro de uma caixinha e a fecha logo em seguida pra guardar o grito em segredo, esquecendo-o num fundo de armário. Aqui é o fundo do meu armário.

O coração são todas essas palavras eternamente. Todas essas palavras inutilmente. Ah coração, se alguém entendesse.

'(...) Estrada de terra que
Só me leva, só me leva
Nunca mais me traz
Barro, pedra, pó e nunca mais (...)'

Milton Nascimento - Carro de Boi
Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:57:58 PM


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Setembro 25, 2006
# VALE A PENA ler de novo: Pequenas pérolas do cotidiano de André de Paula 0086 #

Há tempos estou devendo uma homenagem digna a este homem que me serve diariamente como fonte de referência (boas e más, diga-se de passagem). O estilo de vida peculiar e todos os maneirismos praticados por André de Paula, me dá a oportunidade de pinçar algumas pérolas de seu dia-a-dia. Vivo exposto a estas grandes lições de sabedoria. Leiam, releiam e reflitam sobre as lições de vida a seguir:

Indignado com as barreiras burocráticas impostas por um órgão publico municipal (SMCCU) em relação à autorização da construção da nova casa da família de Paula, André de Paula dispara a seguinte conclusão sobre o serviço:

- Vocês são o único órgão publico que termina com CU porque o serviço aqui é uma merda.

Em umas de suas passagens pelo belíssimo centro de Maceió, André de Paula se depara com uma parada da Policia Militar. Um transeunte que vinha pela rua se aproxima:

- O que está acontecendo aqui?

André de Paula num pensamento ágil e desconcertante lança o seguinte raciocínio:

- O governador Ronaldo Lessa está mandando metade da Policia Militar para o Iraque.

O transeunte assustado sai descabriado rua afora:

- Esse governador ta maluco! Quer acabar com a gente!

Com as atuais crises financeiras causadas pela construção da nova casa da família de Paula, André de Paula resolve cancelar alguns serviços que lhe eram prestados, como o provedor de internet:

- Alô? Eu quero cancelar minha internet.
- Por que? - indaga a atendente.
- Porque eu estou de mudança.
- E para onde o senhor está indo não tem como usar o nosso provedor?
- Não. Eu estou mudando pro interior...
- Sim...
- Interior da Nova Zelândia.
- É... Nova Zelândia não dá.

(05/2003)
Escritos de um desconhecido autor publicado às 3:15:00 PM


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Setembro 22, 2006
# A PRIMAVERA chegou 0085 #

Enfim chega a primavera depois do longo inverno. Já posso sentir a doce combinação do sol morno com o tempo fresco. Já sinto as agradáveis caminhadas. Já vejo a cidade de braços abertos para me receber. Receber esse filho ingrato que a abandonou. Todos têm a sua terra, as suas origens. Boa parte do que eu chamo de raiz está lá. O resto está disperso, já é do mundo todo, como o meu coração.

Meu coração tem um pé aqui dentro e o outro lá fora, nas estrelas. Pairando sobre a terra, como se pudesse estar em todos os lugares ao mesmo tempo. O amor é atemporal e não tem casa, mas minha casa é o amor. Todas essas idéias, essas coisas todas, passam aqui dentro da minha cabeça agora. E lá fora o sol brilha e dá sinais de que o mundo me espera.

Vejo uma bela primavera a minha frente. Vejo 3000 km para percorrer. Ai (suspiro). Que venham esses dias.

Por que eu escrevi todas essas coisas? Não sei. Acho que é para anunciar que daqui há duas semanas o blog on the road estará de volta. Aguardem.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:38:39 PM


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Setembro 21, 2006
# UM DIA sem o amor aqui 0084 #

ao vivo e em tantas cores
já não esconde a dor ou risca (rabisca) velhos amores
vai sozinho à banca de jornal
engole o café amargo, passa os olhos no (pelo) matinal

e vê. e vê.

mudando canais de tv
volta e meia, em algum programa tem você
esfrega os olhos, sente sono
com a cabeça no travesseiro encontra coração nos (em) sonhos.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:46:27 PM


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Setembro 19, 2006
# LAÇOS DE FÁMILIA: Momentos que Manoel Carlos deixa de fora e eu vivo 0082 #

'Diário De Um Desocupado: Café da Manhã da Família de Paula'

Domingo de manhã, família reunida em torno da mesa do café. Com todos recém acordados se inicia uma discussão pelo programa de tv que todos irão assistir:

Pai: Vamos assistir a esse documentário sobre a vida dos ursos, assim se alguém um dia se perder numa floresta e se deparar com o urso, saberá o que fazer.
Avó: Isso é perda de tempo, ficando vendo bichinho na tv, coisa de besta!
Pai: Que nada mãe isso é educativo...
Avó: Ah é? Então me responde uma coisa: o que significa "Amigo Urso" ?
Pai: Eu não sei...
Avó: Nenhum desses biólogos deu essa explicação?
Pai: Não.
Avó: Então o que significa "Abraço do Tamanduá"?
Pai: Ah...Ah... Não sei.
Avó: Tá vendo?! Você assiste esses programas há anos e nunca aprendeu nada de útil!

Então o pai sem jeito troca de canal e assim segue tranquilamente o café da manhã...


'Diário De Um Desocupado : Efeitos Da Expansão Do Capitalismo No Dia-à-dia'

Mais uma vez estava eu passando com meu pai de carro por um sinal próximo de casa quando, como já era de se esperar, surge o seguinte comentário:

Pai: Você reparou que mudou o aleijado que pede esmola nesse sinal?
Eu: Não... (Reparando no fato do aleijado realmente ser diferente.)
Pai: O outro não tinha uma perna, esse tem uma perna fraquinha.
Eu: É... (Prevendo o desfecho de tal observação paterna)
Pai: O sem perna vendeu o ponto pra esse aí. Os dois nunca ficam no mesmo horário juntos pra evitar concorrência.
Eu: É... (Imaginando a qual eu daria esmola, se me deparasse com os dois ao mesmo tempo, ao sem perna ou o de perna fraca. Será que o fato de o primeiro não ter perna faz dele um desgraçado maior, ou não? Se bem que os dois dependem de muletas...)
Pra você ver até onde o capitalismo alcança.
Pai: Héhéhéhé... quero construir uma mesa para me auxiliar na marcenaria..........

Memorias vagas de uma vida vaga. Filho rockstar, pai marceneiro. Um dia comum e, entre um simples passeio de carro, lições sobre o capitalismo selvagen dos ultimos tempos.Preserve sua perna.

(Escritos publicados originalmente entre 12/2002 e 02/2003)
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:48:38 PM


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Setembro 13, 2006
# DA ENFERMIDADE que me enche o saco 0081 #

Então adoeci. Enfermo em minha cama, sem forças, eu me revirava. Volta e meia ela surgia em flashes, pensamentos, enquanto eu alternava estágios de menor e maior lucidez. O porquê d'ela surgir assim pouco me faz diferença. Aparecia, e isto em si já é fato. Pouco havia para se fazer sem adventos como o da Internet banda larga e a tv a cabo, sem falar na literal fraqueza que me acometia. Estar com ela era a melhor memória anterior ao derradeiro vírus. Do amor febril feito sempre sem pressa, do jantar simples compartilhado, do filme sobre gangsteres ingleses.

A vida deveria ser assim, agridoce a dois.

Então adoecido pensei na morte. Enfermo pela casa esperei perder os sentidos. A vida é feita de apostas. De que me serviria o pronto-socorro? Ou você acha que eles fariam uma tomografia computadorizada pelo SUS assim de uma hora para outra? Sem plano de saúde é melhor prevenir sempre, cuidar da saúde para não acabar abandonado em uma maca fria no corredor de um hospital público.

Eu poderia estar com uma hemorragia interna, ou um coágulo no cérebro, graças a uma bela pancada que recebi no rosto. Não tinha como saber. Minhas mãos começaram a gelar, um possível sinal de perda de sangue. Minha cabeça começou a pesar. O cansaço se abateu sobre mim. Mas depois veio a diarréia e a febre e ficou clara a presença do vírus. Pesquisei no Google. Hemorragia interna nada tem a ver com diarréia. Mas bem, poderia ter tido os dois ao mesmo tempo.

72 horas depois da pancada ainda não morri. Sinal de que aquele sangue que cuspi foi o único que me escapou. Ainda estou sonolento. Ainda estou cansado. Ainda tenho minhas dores. Ainda penso nela um pouco. Para tanto existe o tempo. Que corra o tempo então.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:37:03 AM


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Setembro 11, 2006
# SETEMBRO 11, minha dor é maior que a deles. 0080 #

Setembro 11. Há 5 anos atrás, por essa mesma hora da manhã, o mundo assistia atônito aos tais atentados (o tom irônico não abandona meu pensamento latino-americano). Hoje 5, anos depois, quem sofreu um atentado fui eu. Estou eu aqui juntando meus cacos. A maçã do rosto roxa com o hematoma, costelas e pulmão doloridos. Mesmo aparentando dispensar o mínimo de interesse pela história do World Trade Center, nessa manhã de segunda-feira eu divido minha dor com a dos americanos. Aproveitem este raro momento de compaixão, ao menos por parte dos meus combalidos bofes.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:59:44 AM


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Agosto 30, 2006
# PELO BURACO-NEGRO da minha memória: Minas on my mind. 0079 #

O canto de Milton me é quase inato. Cresci com sua voz cravada aqui, dentro de mim.

Em uma casa repleta de música, muito se ouvia. Raízes dividiam o espaço em harmonia com a sofisticação. Era a música do interior, dos homens da terra em contraste com o som de beira de praia; com o rock inglês e o pop de época (de muitas épocas).

Era eu só um menino que voltava para casa todo sujo de barro, de brincar na rua descalço até ficar inteiro encardido. Voltava pra aquela casa, onde Caetano enchia a sala de modernismo baiano. Chico, tímido, falava baixo, ostentava menos e ia mais fundo. Gil mostrava toda aquela alegria, traduzida em suas gengivas amostradas. Tônico e Tinoco lamentavam com beleza rústica a dura vida dos sertanejos. E mais: tinha o Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano; o vaneirão do Gaúcho da Fronteira; o Wando e o Amado Batista que a empregada-babá-que-já-fazia-parte-da -família tanto ouvia.

Em meio a este universo sonoro, eu-menino me sentia confortável. E confortável me era aquela voz suave e forte que preenchia o ambiente, através daquela vitrola Gradiente prateada. Era o Milton, era o vinil Sentinela. Era a Canção da América dizendo que amigo é para se guardar, era Roupa Nova falando de um trem que nunca vem. Era o mundo que cabia entre as montanhas de Minas Gerais. Apeguei-me a aquele cantor de voz forte e coração de menino. Naqueles dias de sol e brincadeiras de infância, Bituca se fez meu amigo.

Hoje, mal ultrapasso os 20 e entendo um tanto de vida e (óbvio) tenho um tanto maior pra aprender. Tendo sempre o Bituca cantando em casa e aqui dentro - da minha cabeça e do peito - eu vejo e sinto que viver vai ser um tanto mais bonito.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 6:32:34 PM


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Agosto 24, 2006
# PELO BURACO-NEGRO do meu ouvido: 20 discos na minha cabeça. 0078 #

Quebrando o ostracismo dos últimos dias decidi, humildemente, redigir esta lista de 20 discos da música pop. O processo de seleção não tem segredo, segui um único critério de escolha para os discos: o amor. O meu apego para com cada uma destas obras. Vocês irão encontrar, a seguir, algumas impressões a cerca destes discos e artistas, sem nenhuma pretensão crítica e com muito corujismo de fã.

The Clash - The Clash


Minha puberdade punk rendeu ao menos o contato com uma grande banda: The Clash. Neste primeiro e clássico LP eu compreendi toda a urgência e vigor do punk inglês. No fim do álbum um reggae apontava novos rumos para a banda e deixava um suspense no ar.

Particularidade: O vigor de um movimento que acabara de estourar, sacudindo os alicerces culturais de um país conservador.

London's Calling - The Clash


Se o 1° disco mostrou que, além da energia rockeira, o Clash não possuía preconceitos musicais, neste terceiro ato da banda, todas as intenções se revelaram. Viajando do punk ao jazz, passando por rockabilly, ska, reggae e ritmos latinos o Clash fez o disco definitivo do movimento punk e um dos 10 melhores da história do rock. Comprei o CD desconfiado e logo ele era um dos meus preferidos.

Particularidade: O modo como a banda passeia de um ritmo ao outro sem perder a identidade é único.

There's Nothing Left To Lose - Foo Fighters


Terceiro e melhor disco do Foo Fighters. Acho que o momento da banda explica bem o clima do disco. Reduzido a um trio e sem gravadora o F.F. se reuniu no estúdio da casa de Dave Grohl sem a pressão de ter de realizar um grande álbum. E dessa falta de pretensão surgiu um grande disco, com canções bem lapidadas. Poucas vezes ouvi um casamento tão equilibrado entre canções e timbres. Essencial (ao menos p/ mim).

Particularidade: O disco foi tão bem elaborado que o Dave Grohl revelou mais tarde que a banda abandonou a linha do álbum, porque era difícil de executar ao vivo.

Terror Twilight - Pavement


Junto com o disco do Foo Fighters, este álbum do Pavement me ajudou a superar a monotonia do punk. Perfeito da primeira a última música, o Pavement fez sua despedida de forma honrosa, com um álbum delicado e bem executado, repleto de lindas canções.

Particularidade: Este disco é um projeto antagônico ao que o Pavement realizara anteriormente, deixando o desleixo de lado a banda se revelou sublime.

Standing On The Shoulder of Giants - Oasis


Longe dos holofotes, sem o posto de maior banda do Reino Unido e pela 1ª vez sóbrios em um estúdio, o Oasis realizou seu grande disco. São 10 canções em que fica clara a maturidade da banda. O som é 'gordo', preenche cada espaço. Mais uma vez a despretensão rendeu um bom disco.

Particularidade: Este é o disco em que o Noel Gallagher queria que a banda soasse mais coletiva, mas é onde fica mais claro a sua mão.

Bloco do Eu Sozinho - Los Hermanos


Se os discos anteriores me ajudaram a abandonar o marasmo dos 3 acordes do punk, este 2° do L.H. sepultou de vez minha puberdade. Foi uma revolução musical na minha breve vida. Com a beleza dos ricos arranjos de metais e a ausência de uma pose pretensiosamente artística, que viria a se firmar depois, os Hermanos ergueram o seu libelo sujo e poético, no melhor casamento entre MPB e rock alternativo realizado até então.

Particularidade: Os arranjos de metal fazem contraste com as guitarras sujas de uma forma belíssima. Rico em detalhes os arranjos crescem com o passar do tempo.

Ruído Rosa - Pato Fu


Um dos momentos mais altos do pop nacional. Disco pra fazer inveja para os gringos, encher a boca e dizer que a banda é daqui, que é nossa. Tirando o orgulho e patriotismo, sobra um apanhado de belas canções. Disco mais coeso da banda mais estranha do pop nacional.

Particularidade: Este é o disco mais rock da banda, deixando os experimentos de lado e fazendo falar mais alto a lírica bem elaborada das canções do John.

Ok Computer - Radiohead


Eu lia sobe Radiohead e sentia raiva. Sentia raiva porque era punk e odiava aquela banda cabeçuda e que a crítica era unânime em elogiar. Depois de anos torcendo o nariz me deixei levar pelo Pablo Honey e pelo The Bends, mas foi o Ok Computer que me virou ao avesso. O disco era tão bom que me doía, doía muito. As canções mais bem lapidadas de 50 anos de rock estão neste álbum. Nunca uma banda extraiu tanto de seu som. Mais que perfeito.

Particularidade: a seqüência de Subterranean Home Sick Alien, Exit Music For a Film e Let Down é um dos momentos mais incríveis da música.

Queens of the Stone Age - Queens of The Stone Age


Talvez minha maior aquisição financeira de um disco. Por apenas 10 reais deixei o Joshua Hommes entrar na minha vida com suas melodias tortas e guitarras únicas. Chapei na hora. Os E.U.A. mostravam a sua grande banda de rock ao mundo. Urgente, pesado, lisérgico e único.

Particularidade: A perfeita utilização e reinvenção do trio baixo, bateria e guitarra. Solos e melodias sinuosas.

Relationship of Commando - At The Drive-In


Um pouco antes de descobrir o QOTSA, este disco caiu como uma bomba na minha vida. Nunca nada havia soado tão vigoroso (até hoje nada superou, ao meu ver, o vigor desse disco). Pauleira. Rápido, gritado, lindo. Cedric berrava ao mundo que o rock estava bem vivo sim e que o nome dele agora era At The Drive-In. Depois desse disco a banda acabou, em seu auge criativo.

Particularidade: Com certeza os berros proferidos por Cedric e os excelentes arranjos de guitarra.

Severino - Paralamas do Sucesso


Antes deste disco, eu me iludia a cerca da capacidade do Paralamas (hoje, tenho plena certeza da qualidade ímpar de sua discografia). Ao ouvir esse disco abaixei a guarda. Grande obra. Um disco conceitual sobre um país a margem de tudo. Lindo. Ainda mais sublime é seu encerramento com 'O Amor Dorme'.

Particularidade: Herbert acerta em todas as canções, nenhuma das composições originais do disco fica fora de contexto.

A Vida é Doce - Lobão


O Lobão é um ser inquieto. Faltava-lhe me convencer que aquela energia tamanha renderia um grande disco. Com este álbum independente ele acabou com minha dúvida e entrou na minha vida. O melhor compositor ativo da MPB cometeu um disco sublime ao criar crônicas sobre relacionamentos, drogas e um Rio de Janeiro sempre sombrio.

Particularidade: O tom autoral presente em toda a obra do Lobão, aqui atinge seu ápice.

Kid A - Radiohead


Se o Bloco foi havia sido uma revolução musical, esta obra-prima do Radiohead revirou-me mais uma vez. Talvez o melhor disco de todos os tempos, este antagonista do Ok Computer ainda me deixa boquiaberto. Depois desse disco eu soube que o Radiohead era não só a maior banda do meu tempo, mas de todos os outros. Exagero? Oras, este é um texto de fã e não de crítico.

Particularidade: A reinvenção da banda, de uma forma inesperada e imprevisível.

R - Queens of The Stone Age


2º na minha lista de discos preferidos (logo atrás do Kid A), este é o tratado definitivo da psicodelia proposta por Josh Hommes (até o presente momento) e um convite a total chapação dos ouvidos, mente e libido. Pop e bem elaborado, é um dos discos mais redondos do rock.

Particularidade: A forma homogênea com que a banda cria suas canções híbridas de peso e psicodelia.

Sentinela - Milton Nascimento


Desde pequeno ouvia o LP deste álbum em casa. Cresci e o descobri com prazer, maravilhado. O Milton é o grande artista da MPB para mim. As melodias sinuosas, o vocal único. Com este disco repleto de belas canções eu me apeguei ao Bituca.

Particularidade: Menos experimental que suas obras anteriores, neste disco Milton destila todo o seu talento em canções mais acessíveis.

Clube da Esquina - Milton Nascimento e Lô Borges


O maior coletivo da música mundial. A mais bem sucedida viagem da música brasileira. Som único que veio das montanhas de Mina Gerais, dos vales e serras. Lô Borges tinha apenas 16 anos quando foi recrutado para gravar com Milton. A dupla foi amparada pelos melhores músicos e letristas mineiros e o resultado é uma experiência única na música. Fantástico.

Particularidade: O disco tem uma beleza desafiadora. A temática das canções faz o mundo caber em Minas, faz de Minas o mundo todo.

Canções Dentro da Noite Escura - Lobão


A Vida é Doce era um grande álbum. Pensei que não seria superado, afinal, Lobão estava beirando os 50. Parece que a música amadurece com a idade. Nunca ouvi um coroa esbanjar tanto vigor. Um disco conceitual mostrando um Rio cada vez mais sombrio. Pesado como nunca. Talvez a última grande obra de um gênio.

Particularidade: Além do peso inédito na obra do compositor, as parcerias póstumas realizadas no disco (Cazuza e Júlio Barroso) são belíssimas.

Racional - Tim Maia


A música não irá se repetir. O que foi realizado nos anos 70 não terá reprise. Funk, soul, psicodelia de primeira. Tim Maia viajando pesadamente com sua banda, e o mais incrível: ele estava sóbrio e limpo como nunca. Misturando uma seita louca, discos voadores e o melhor da música negra da época, Tim lançou de forma independente este clássico do balanço. Amo.

Particularidade: Os vocais são lindos, Tim estava no auge, alcançando o sublime várias vezes. Imperdível.

Rezafenda - Gilberto Gil


Antes de ser ministro da cultura, antes de perder sua inventividade, Gil fazia grandes discos, lá pelos idos de 1970. Após o exílio forçado em Londres, Gil retornou ao país para dar seqüência a sua carreira fonográfica. Este belo registro mostra um retorno às origens, antenado com a música da época. É um dos melhores, se não o melhor álbum de temática regional da música brasileira, guardando momentos de grande beleza.

Particularidade: A jovialidade das canções. Incrível como a MPB da época tinha tantos jovens compositores de tamanho talento. Gil era um deles.

Grace - Jeff Buclkey


Então tem esse rapaz, o Jeff Buckley. Pois é. Ele fez este disco único e nos deixou aqui sozinhos, pensando como teria sido belíssima sua carreira, seus discos. Dono de voz e interpretação singulares, Jeff marcou historia pela alma de sua música e por nos deixar tão cedo. Rock, folk, soul... Alma mesmo. Tenho certeza que meus filhos vão ouvir esse disco e se emocionar, e que os filhos deles farão o mesmo.

Particularidade: A profundidade das interpretações e a força das letras do disco irão cruzar gerações.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:18:54 PM


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Agosto 14, 2006
# NÃO PISE NA GRAMA 0077 #



Nova semana (os mesmo dias). Bola pra frente (não se anda para trás). Vago (divago) sem grande inspiração ou aspiração para escrever / redigir; criar / inventar. Portanto não vou me deter a este texto, não vou me dar ao trabalho de medir as palavras. Quero apenas está página com novos ares. Novas letras na introdução. Até que a inspiração me receba eu estarei aqui, sentado à sua porta, esperando que lhe apeteça me atender antes que a chuva volte a cair.

Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:23:59 AM


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Agosto 7, 2006
# TODO AMOR DORME 0076 #

Segunda-feira de chuva. A chuva lá fora cai, talvez num intuito de lavar as mágoas de um fim de semana difícil. Encarar o amor com outros olhos foi doloroso. Se nos últimos 2 meses eu contive as lágrimas, no sábado não foi bem assim. Vacilei, abaixei a cabeça, tentei disfarçar. No fim acabei sendo um pouco mais forte do que me imaginava. Ela não. O choro dela se prolongou um tanto mais, e dessa vez eu não podia abraçá-la e dizer que tudo ia ficar bem. Não podia colocar ela no colo mais uma vez e passar a mão no cabelo dela, cobrir ela de beijos, fazer amor com ela e ficar abraçado com ela, esperando o mundo acabar. Não dessa vez.

Me parte o coração vê-la sofrer. Mas sei também que p¿ro bem dela não posso amolecer. Nosso plano deu errado. Não saiu tudo direitinho, conforme o combinado. Ela falhou, eu tive minhas falhas também. Desfez-se o laço. Ela me disse que me achara mais homem. Eu a vi um tanto menina, desprotegida, frágil, fazendo um esforço danado pra segurar a onda do meu lado. Eu queria dizer que tudo ia ficar bem pra ver um sorriso dela, ver a postura ficar ereta. Mas não podia ser mais assim.

Amar nem sempre é passar a mão na cabeça. Amar às vezes é ser severo como um pai. Ela vai ter a chance de corrigir os erros dela. Com outra pessoa. Outra pessoa que talvez mereça menos, ou talvez mais, o amor dela. Mas se eu não for firme agora ela nunca dará o devido valor ao amor e não poderá amar plenamente de novo, ou pela primeira vez.

Hoje não vou escrever bonito. Não vou usar metáforas. Não vou poetizar nada. Vou ser direto e sincero. Não quero vê-la sofrer. Não quero vê-la encolhida. Independente do que as pessoas tentam projetar em você, o que é só teu é maior e mais belo.

Fique bem meu amor.

(Texto escrito sobre o efeito da trilha-sonora do filme I'm Sam, que eu vi com ela. Vocês sabem, é aquele filme em que o Sean Penn é deficiente e tem de cuidar de uma filha pequena. Ele explica o mundo todo pra ela através dos Beatles. Então, a trilha é só Beatles revisitado por artistas atuais. Lindo demais. Queria que ela ouvisse.)
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:37:50 AM


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Agosto 3, 2006
# DA SALA VAZIA DO CORAÇÃO 0075 #

Prometi a mim mesmo (neste exato instante) não falar de amor, se isto for feito de modo salgado, amargo. Portanto este texto não terá amor.

Se este texto não viverá de amor, também não terá o ódio a nutri-lo. Estas linhas serão alimentadas pela indiferença. Talvez a mesma indiferença que mata de fome crianças no sertão e na África. Ponto. Fadei meu texto a subnutrição. E o prefixo se adequa com perfeição ao rumo que tomam minhas idéias. SUBnutrido está meu texto. Nutrido por sentimentos menores, inferiores ao amor, porque este não cabe mais - pelo menos por enquanto - às minhas letras.

Cabe a mim o papel de não tornar esta indiferença amargura. E talvez o mais difícil: não fazer da indiferença um vazio. A indiferença é sim um algo (um motivo), um objeto ocupando a sala vazia do meu coração. Um único móvel em uma imensa sala, se arrastando de um lado a outro no salão. Arranhando o chão, sem encontrar seu lugar. A indiferença está aqui, mas não se acomoda. Mas como indiferente que é, também não incomoda. A indiferença há. Ponto.

Também não incomoda a mim, me ver só, em sala vazia. Não saio mais de casa. Se de casa saio o desconforto me alveja e só passa quando o álcool - companheiro etílico dos deslocados - em minha veia adentra. Aí o verbo rola solto, as pernas encaram calçadas e asfaltos com prazer e a noite se torna um passeio agradável. Parece exagero de minha parte, mas não me vexo ao dizer, que de casa, já parto empunhando a primeira latinha. Esta bem gelada da gaveta da geladeira, de um primeiro gole suave e refrescante. Vil companheira.

* * *
Desaprendi a me divertir (mais um Ponto). Nas últimas semanas estive sobre o teto de um automóvel em movimento e fiquei preso para fora de uma residência munido apenas de minha underwear. Fui flagrado por sites de festas completamente embriagado e estive com Jah - o que foi uma experiência hilariante, ri sem parar durante horas e depois mergulhei em profunda depressão. Tudo isto expondo ao mínimo minha indiferente figura fora de casa.

Neste meu encontro com Jah, enxerguei-me de fora da carcaça. Analisei cada ponto de minha presença e tão sombria conclusão me veio à tona. Há quem chame este autoconhecimento de bad trip. Estes, temerosos por enxergar a si mesmos como um completo fiasco, ignoram a dádiva momentânea proporcionada por tão acessível gatilho. Pois eu, meus caros amigos e amigas, contemplei a mim mesmo nos olhos, e só não ri de minha posição indiferente, porque estava cansado do riso. Vi o quanto é tênue a linha com que se tecem as relações, o quão superficial são nossos anceios, e como é triste não poder se fundir aos outros. Nascer único e morrer sozinho.

* * *
Ok. Talvez tenha divagado um tanto ao prolongar destas linhas, mas o fiz para atestar o que de inicio aleguei ser o combustível de minha escrita: a indiferença. Só a indiferença manteria uma mente sã serrada aos trilhos. Só mesmo estando indiferente à própria condição para seguir imune.

Neste ponto (um último ponto), me flagro tropeçando em minhas próprias idéias.

Eu não estou são, tão pouco imune. Minhas entranhas se importam. F*deu!.


*Mais um escrito composto a partir da audição de The Sophtware Slump, do Grandaddy. Um disco de crônicas musicais, que inspiram as crônicas escritas.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:06:04 PM


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Julho 31, 2006
# QUINTA-FEIRA 27/07 0074 #

A porta abre. "Em 5 minutos estarão aqui". Respondi que iria depois sozinho. Olho o relógio e me descubro 2 horas atrasado. Na cena seguinte estou em pé no corredor de calça jeans sem camisa. "Não vai nem tomar banho?". Jogo água na cara e tomo um copo de suco. Os dois me recebem com sorrisos. Lógico que estavam rindo da minha cara desfigurada pelo cansaço. Deito no banco traseiro e pouco consigo balbuciar sobre a noite passada. Flashes passam pela minha cabeça como os topos dos postes passam na janelinha do carro. Entre muitas cervejas e cigarros, me vejo urrando agarrado ao pescoço de alguém. Rock'n roll all night e ressaca ao longo do dia. Shows de rock deveriam ser assim; uma total e completa festa de amigos e desconhecidos. Todos unidos neste processo catártico regado a álcool e microfonia.

* * *
Os Faichecleres abriram a noite tentando se passar por Cascavelletes. Não faltaram os maneirismos padrão do rock retro. Sobrou presença de palco para o baterista mais louco da noite. Minha precária memória bêbada diz que eles foram a banda com o som "correto" do evento. A melhor equalização e timbres bem definidos. Cerveja. Rock Rocket vem em seguida tentar provocar algum caos. Tolice. O caos já estava em andamento havia um tanto.

Os rapazes (pessoas amigas) se reúnem no balcão lado a lado. Um copinho de pinga com mel para cada. Mexe bem, mexe mais um pouco. Isso. Agora levanta o copo, brinda ao Motorhead (mas é claro! este é um show de rock, não iríamos brindar à saúde). Vira o conteúdo do copo na garganta. Engole de uma vez só e amassa o copo de plástico com um tapa no balcão. Hora de ver o Daniel Belleza & Os Corações Em Fúria. Glam é uma palavra para essa banda. Entre plumas e couro, se destaca a figura de um baixista andrógino, que mais tarde eu descobriria ser uma flor de pessoa, de um aperto de mão firme, que nada condizia com sua aparente delicadeza. O caos que o Rock Rocket prometia, quem trouxe a tona em toda a sua magnificência foi o Daniel Belleza. Agora sim estamos em uma festa rock. Roda e mosh entre amigos. Tombos bêbados e a Mtv filmando tudo. Lindo.

Daniel Belleza se une à trupe para mais uma "lapada" no balcão. A cabeça gira quando Ecos Falsos tomam conta do ambiente. "O meu coração nunca vai ver a luz do dia". É madrugada e todos os músicos das outras bandas se revezam nos microfones da banda com visual indie paulista, mas um som que passa longe de ser CUlt. As 3 guitarras embolando o som parecem ter encoberto até a apresentação seguinte. (Somente na manhã ressacada de sexta-feira, eu descubro, ouvindo com atenção às suas gravações, que o Ecos Falsos era a banda mais legal da noite. Ao vivo o som continha um noise adcional, oriundo do precário equipamento de som disponível, que somado ao nível etílico da minha percepção fez com que eu não prestasse a devida atenção ao grupo. Agora estou eu aqui, com raiva, arrependido. Bah!).

O Vanguart sobe ao palco. O Vanguart desce do palco.

Chega a hora da única banda do nordeste mostrar a que veio. Tão logo qualquer pose alternativa-cabeça é mandada à merda. Lembrem-se: está é uma festa rock. O trio formado por baixo, bateria e viola de 10 cordas toca Nirvana para encendiar a todos aqueles que reclamam que a banda de Kurt Cobain jogou o underground no mainstream. Esqueçam as camisas listradas e os cabelinhos desarrumados propositalmente moçoilas. Dancem.

* * *
Bela noite. Num linguajar interno, a noite foi classificada como sendo "de gala".

Chego em casa às 4 e meia. Deito moribundo na cama. Fecho os olhos.

A porta abre. "Em 5 minutos estarão aqui".




Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:33:19 AM


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Julho 26, 2006
# TOMA QUE O FILHO É TEU 0073 #

Publicar textos em primeira pessoa é uma atitude um tanto insensata da minha parte, afinal todos podem interpretar o que está escrito como uma verdade, dessas verdadeiras e lapidadas pelas palavras. Já aconselhavam os professores, "não vá escrever em primeira pessoa meu filho...", pois é, eles estavam certos. Mas certos um tantinho assim mínimo, sem importância. Escrever em primeira pessoa é um exercício de desmembramento, de divisão celular, quase desintegração mesmo, de todas essas partículas que formam o "ser".

Se abro o peito e deixo sair estas letrinhas relapsas na página em branco é porque elas estão aqui pedindo pra sair, desesperadas. É porque essa voz aqui dentro também precisa falar. E fala. Até mesmo grita. Cansei de métrica e de tantas outras coisas que são tudo, tudo menos verdade. "É preciso dar vazão aos sentimentos"? É. Mesmo que seja brega, que seja pura estupidez, que seja coisa de adolescente que ainda chora no travesseiro ouvindo Legião.

Eu não choro mais ouvindo Legião. Nos últimos meses só estive perto de chorar 2 vezes. 2 vezes por esses dias, e assistindo a filmes. O primeiro foi um belo soco na boca do estômago. "Crash". Assim mesmo onomatopéia de choque, de batida. Foi dita tanta bobagem sobre esse filme quando ele ganhou um Oscar inesperado. Mas que diabos! 5 meses depois do Oscar eu assisto ao filme e fico atônito no sofá. Remoendo cada cantinho escuro dos meus pré-conceitos. Falaram em filme pós-neura de 11 de setembro e outras coisas tacanhas - como se os choques culturais fossem frutos de um atentado e não o atentado fruto de um choque cultural. Essas pessoas vivem em que mundo? Que filme lindo e necessário. Prendi o choro ali, remoendo minhas entranhas, pensando nas pessoas e suas infinitas diferenças. Foda.

A segunda vez em que quase chorei essa semana foi em um filme desses em que o pai não tem intimidade com o filho e tem que aprender a se virar com ele. É claro que no fim do filme eles vão se entender e o filho vai dizer que ama o pai, e vice-versa. Mas é lasca! Acho que estou emotivo mesmo. As lágrimas correram justo na derradeira cena em que o pai e a filha reconhecem que não vão mais viver um sem o outro. Diabos! Eu quase um homem feito, chorando escondido na agência porque vi um pai abraçando a filha.

Parece que choro com essas coisas porque me tornei incapaz de chorar das minhas frustrações, aí qualquer propaganda de margarina vira válvula de escape. Pro diabos! Acho que todas as lágrimas que eu tinha para minhas frustrações acabaram e só me sobrou o reservatório da emoção barata. Mas eu choro mesmo. Choro esse choro marginal feito essas letrinhas mal paridas, que eu liberto em primeira pessoa sem medo.

Hora de viver. Porra.

*E viva o Grandaddy que eu ouço todo dias às 17:30 antes de sair do trabalho. Vou embora chorando por dentro e impossível por fora
Escritos de um desconhecido autor publicado às 7:13:17 PM


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Julho 21, 2006
# ENTRE SUPER HOMENS 0072 #

Então ontem eu e meu pai fomos dar continuidade ao ritual que fazemos desde que me lembro por ser pensante. A cada adaptação cinematográfica para um herói de historias em quadrinhos estamos lá os dois, prontos para mirar a película e julgar a competência dos produtores. A bola da vez foi a adaptação mais esperada do ano, Superman - O Retorno.

Super-Homem, o nome, ou o símbolo, é um signo que carrega uma baita significância. Afinal, o detentor de tal título estaria à cima dos demais da espécie. Então nada mais justo que este super-homem não seja um terráqueo, para não despertar a inveja alheia e toda a mesquinharia que faz parte do ser humano.

O primeiro ponto importante para dar vazão a essa história de que há entre nós um ser de capacidades sobre-humanas é a caracterização, a transformação de um ser humano comum, um ator, na personificação de uma figura idealizada, um deus. Apoiado por este ponto de vista, durante a exibição do novo filme, me dei conta de quão bem sucedido fora seu antecessor.

Não que o novo filme não tenha feito bonito, mas todas as qualidades presentes neste retorno são apoiadas no que fora realizado antes. Christopher Reeve interpretou um super herói no cinema como nenhum outro ator, talvez, será capaz de interpretar. Sua perfeita equação entre candura e força, entre ingenuidade e charme, permanece, até hoje, insuperável.

O filme que mais se aproximou de tal mérito - o que já é um tremendo feito - foi a adaptação do Homem Aranha feita por Sam Raimi. Mas também estamos falando de um diretor ímpar.

* * *
Sam Raimi começou suas "grandes" experiências cinematográficas com o clássico trash B "Evil Dead", culminando no genial "Army of Darkness", ambos conhecidos por nós, brazucas, como a série "Uma Noite Alucinante". Estes filmes além de revelarem o talento singular do diretor para o absurdo, também criaram o mito do célebre ator Bruce Campbell, como um dos maiores antagonistas do cinema. Mas Sam Raimi é muito mais que isso, basta conferir "Um Plano Simples", um sombrio conto sobre o que há de pior nos seres humanos, magistralmente interpretado por Billy Bob Thorton, na época ainda uma promessa, que viria a se consagrar tão logo em breve. Ou seja, tendo estes exemplos, fica claro que apenas um diretor singular seria capaz de alcançar os méritos do primeiro e maior filme feito sobre um super herói, principalmente por sua habilidade na escolha de seus protagonistas, comprovada em Homem-Aranha pela escolha de Toby Maguire.

* * *
Voltando ao Christopher Reeve, que - pasmem! - é o real motivador deste texto, o cara foi foda. Ele não só tornou real a adaptação do maior símbolo dos quadrinhos para as telonas, como também se tornou maior que este. Depois do filme foram os quadrinhos que se adaptaram ao ator, tamanha sua força. Mas ainda não é este o ponto onde quero chegar.

Como todos sabem, Reeve sofreu um grave acidente em uma prova de hipismo, ficando sem movimentos do pescoço para baixo, respirando com a ajuda de aparelhos. Foi frente a esta difícil situação que o mundo conheceu porquê o ator havia sido grande ao interpretar o super-homem. Contrariando o pragmatismo, o homem se sobressaiu ao mito. Christopher Reeve provou que super homem era ele e não aquele dos quadrinhos, dedicando seus últimos anos de vida e toda suas forças restantes na luta pelas pesquisas com células-tronco, esta sim, uma causa capaz de salvar a vida no planeta.

Só um homem capaz de demonstrar tamanha força, ao ficar completamente sem movimentos em uma cadeira de rodas, poderia ter antes, interpretado o maior símbolo de heroísmo da cultura ocidental. E este é o "segredo" da feliz primeira adaptação do Superman para os cinemas, o grande Christopher Reeve.

Saímos do cinema satisfeitos com o filme, eu e meu pai. Não resisti em perguntar a ele sobre a sensação de ver o primeiro filme e agora este outro primeiro filme. Ele respondeu o esperado, que a magia não se repetira com a mesma força. E que magia.

Voltei para casa satisfeito de ter ido mais uma vez ao cinema com o meu pai, o meu super homem.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:02:53 AM


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Julho 20, 2006
# TEXTO / DIÁLOGO COM O LEITOR IMAGINÁRIO 0071 #

Enquanto eu ouço Temptation do New Order me vêm todas essas coisas à cabeça. Tudo isso que é complicado, que outrora chamava amor, e que hoje é um arremedo de tanta coisa, que o amor mesmo, esse, eu não faço idéia de onde eu guardei. Aí me arrisco nessa prosa tortuosa em busca do esconderijo do sentimento foragido. A música vai terminando, o som baixando, o parágrafo delongando e nenhum sinal do bendito (ou talvez maldito).

Ah, e tem outra também! Estou aqui escrevendo para matar meu tempo ocioso de trabalho com algo "produtivo", nalguma tarefa ligada a minha função (redator). Aí me ponho a desenrolar estas linhas despretensiosas de uma prosa vaga e sem objetivos, enquanto que a trilha do Trainspotting faz às vezes no meu headphone.

Alias, dizem que o Trainspotting tem continuação. Eu nunca assisti, nem me lembro de alguém ter comentado algo do filme comigo. Bah! Meu Danny Boyle predileto ainda é o "Por Uma Vida Menos Ordinária", que, em verdade, é o que estou necessitando agora: uma vida menos ordinária. Quanto menos lugar comum, repetição e subordinação melhor.

Estou levantando essa bandeira todos os dias agora, né? "Cansei de blá blá", "cansei de num sei mais o quê"... Mas fazer o quê, se ser tratado por todos como um cachorro - no sentido pejorativo, porque ser tratado como cachorro com carinho é bom - cansa e gera esse desgaste nas idéias. Vamos combinar assim gente: 1 mês sem botinada, pode ser?

É desse mês que eu preciso mesmo, esse mês que a gente chama de férias e que eu não tenho a 18 meses. Como tiro férias daqui a 2 meses fica muito justo a proporção de 20 meses de trabalho para um de ócio, não? Quero tirar um bendito mêszinho para não olhar mais na cara de ninguém aqui no escritório, para não ir todo fim de semana no mesmo bar, para não fazer o mesmo percurso todo maldito dia, enfim, quero um mês pra deixar a merda toda aqui e tocar p/ sul. Ver minha terrinha vermelha, minha família e amigos, todas minhas origens. Aí quem sabe eu arranjo maiores estímulos para escrever algo de real valor, e não apenas esta divagação dirigida a você, leitor ideal imaginário.

Pra você meu querido(a), aquele abraço.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:17:20 AM


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Julho 17, 2006
# MEU PÉ ESQUERDO 0070 #

Tem dias em que tudo está predestinado a dar errado. Naquele momento em que acordei, não devo ter dado conta de que o primeiro pé ao tocar o chão fora o esquerdo (este aqui que está torcido, reclamando de dor). Pronto! Inicio do fim do meu dia. Minha carona furou, porque de certo o playboy que me leva pra trabalho (meu chefe) bebeu demais e não conseguiu acordar, enquanto tem uma pilha de jobs nos esperando. Do outro playboy eu nem digo nada. Ele tá lá em Sampa entrando no bísturi, porque é incapaz de emagrecer sozinho e manter seu peso.

Fui pro ponto de ônibus. Na esquina vejo o bendito buzão à toda velocidade, olho para o ponto e não tem ninguém, olho para o sinal que está aberto e decido correr para alcança-lo, já que estava atrasado 40 minutos - diga-se de passagem. Para que o motorista enxergasse meu apelo para parar o ônibus, eu decidi pegar um atalho pela grama, ao invés de seguir pela calçada. Tudo certo, num fosse um buraco encoberto pelo mato. Maravilha. Piso no buraco, torço o pé, sujo toda a minha calça, porque a grama estava úmida e jogo meu almoço no chão - publicitário, assim como peão de obra, também leva "quentinha" para o trabalho. A perfeita imagem do derrotado. Finjo que nada aconteceu, levanto logo e alcanço o ônibus. O motorista me encara e eu solto um "buraco da porra", pra justificar a humilhação. Passo a roleta e vejo as pessoas rindo de mim. Sento no fundo encolhido. Meu tornozelo dói, dói pela dor e pela humilhação. Minhas calças sujas, tento esconder os joelhos me sentindo um lixo.

No caminho do trabalho ando cabisbaixo sem a mínima coragem de encarar ninguém. Entro na recepção da agência e o "bom dia" sai engasgado pra recepcionista. Jogo as coisas de qualquer jeito na mesa me sentindo o último. "Bem vindo à realidade, meu caro proletário". Meu pai não trabalha na Globo, nem fez mestrado na Espanha. Meu pai sequer consegue um emprego estável. Eu não acordo a hora que quero pra trabalhar, nem faço lipoaspiração pra emagrecer. Eu acordo pra me humilhar na rua e ganhar 400 contos, que gasto com bebida e outros pormenores, que uso como dispositivos para nublar minhas preocupações a cerca das incertezas de meu futuro.

Cansei.

Cansei de trabalhar pra dois playboys, que são bons amigos, mas que não vivem meu mundo. Cansei de ir para uma universidade onde eu rezo para que não tenha um trabalho em grupo, porque é impossível dialogar com qualquer um daqueles seres do meu curso, que definitivamente não têm culpa da formação que receberam, mas putz! Eles vão se formar e se tornar professores, enquanto que eu tô praticamente pulando fora. O que será dos alunos deles? Cansei da minha passividade. Cansei de ser traído e ter que aceitar isso, porque "o amor supera todas". Cansei dessa vida, desse corpo desregulado. Cansei de ser palhaço de mim mesmo. Bah! Meu pé esquerdo torcido dói à beça.

Voltei a publicar minha consciência em quadrinhos no alto da página. Quem quiser leia, quem quiser ignore.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:36:56 PM


.atrapalhe o autor:
Julho 13, 2006
# OK, OK 0069 #

sobrou pra mim
a felicidade sempre ofende
mas tristeza demais cansa

bem, que se fodam os ofendidos!

então respira mais
que eu respiro mais
ok, ok


(violins)
Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:52:08 AM


.atrapalhe o autor:
Julho 10, 2006
# O AMOR FOI EMBORA 0068 #

Então escrever é esse exercício ingrato de que tantos se queixam. É um tal de "não sou bom com as palavras" pra lá, um "minhas idéias não tem embasamento teórico suficiente" pra cá, ou um clássico "não consigo me expressar adequadamente", entre tantas outras desculpas e justificativas.

Escrever pra mim há um ano é trabalho. Só não é ganha pão, porque pão eu tenho e um teto também. Escrever como profissão é um jogo no qual eu tenho de provar se escrever bem aqui é escrever bem em qualquer lugar, ou, se sou apenas mais uma falsa promessa da internet e seu novo mundo. Vá lá, redator publicitário não têm que escrever como um Machado ou um Flaubert, mas infelizmente, meus caros, todo anúncio tem que ser um best-seller. Dá pra vocês?

Então desenvolvo essa função que deveria ser uma Brastemp, mas que me causa uma séria de bloqueios que não há Lactopurga que resolva, que faça as "palavras" saírem. A publicidade me deixou econômico com as palavras, encerrou-me-as no peito, travou-me-as na garganta. Não estas palavras que compõe anúncios e me garantem as cervejas sagradas do fim de semana. Estou falando das palavras que moram aqui dentro. Essas, meu amigo, não querem mais sair. Será que vendi minhas palavras em definitivo?
. . .
Reconheço que elas foram mal tratadas. Tragadas por algumas mágoas. Estou me tornando introspectivo de novo. Longas pausas intercalam minha presença em círculos de conversa. Vejo-me distante da terra que toca meus pés. Ando por aí assim desprendido. O amor foi embora. Vejo as pessoas e nada sinto, estou com as pessoas e nada sinto. Sobram-me as pausas. Sou como as pausas intercaladas. Sou essa divagação.

Meu último refugio é a música. Se pudesse me comunicaria através dela, apenas. Palavras não me cabem mais. Não estas ditas com frieza, sem calor. Estas são as que me sobraram.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 4:43:06 PM


.atrapalhe o autor:
Julho 3, 2006
# PERDI MEU SONO 0067 #

Guerra Fria

"algumas peças estão fora do lugar.
eu vejo-as procurando a melhor forma de montar
o quebra cabeças da realidade,
de formas tão incertas e tão poucas linhas retas,
(que cercam as espessas paredes do meu exílio)
que forram esta dura cama que vela meu sono.

todo sonho que eu tenho tem você,
(tem) nós dois tão perto. tão longe daqui, felizes.
só mais um sonho, pra me pregar (mais) esta peça
fora do lugar...
perdi meu sono."


(Canção inédita)

*Não escolhi estas palavras, a melodia me susurrou todas ao ouvido. As escrevi com paciência, em alguns momentos relutante, mas aí estão todas elas como as notas do violão me pediram. Paridas e jogadas no branco.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:14:23 PM


.atrapalhe o autor:
Junho 28, 2006
# DO QUE SOBROU DO AMOR...0066 #

Quarta-feira, véspera de feriado e a manhã vai se arrastando, adiando o meio-dia. Eu, aqui do meu posto, oscilo entre o apático e o relapso. Meu semblante deve dizer muita coisa: olhar perdido na tela branca do computador; a boca fechada, curta e reta; sobrancelhas que nada dizem, tão pouco se movem.

No ouvido rock inglês, e entre um falsete e um Fender Rhodes, eu procuro o sentido que não há, a frase que não está lá. Minhas mãos frias sobre o teclado amarelado vacilam, arriscam uma, duas teclas de cada vez. Desistem, procuram o backspace, o delete, me parece que este é um exercício de selecionar e apagar, e não de redigir, construir.

As mãos gélidas passivamente correspondem ao incerto do meu íntimo, e a pergunta paira no ar com o peso que só a delicadeza é capaz de imprimir às coisas:

- O que se fez do amor?
Escritos de um desconhecido autor publicado às 12:43:46 PM


.atrapalhe o autor:
Junho 25, 2006
# AH! SAUDADE... 0065 #

Queria alcançar a pitanga com a mão e sentir o doce-azedo na boca
Revirar as pequenas folhas do chão atrás de um morango maduro
Subir no pé de goiaba e comer goiaba verde
Correr por entre as bananeiras e os pés de café
Ver minha vó no tanque e sentir o perfume do fumo d'ela
Entrar na casa d'ela pra sentir aquele cheiro bom do café sendo passado
Sentar na cozinha pra conversar, ouví-la
E deixar falar a sabedoria da simplicidade
Saudade e nostalgia
Raízes.


*Se não tem um impressão interessante para resgistrar sobre o texto eu apago o comentário.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:22:13 PM


.atrapalhe o autor:
Junho 19, 2006
# LOVER YOU SHOUD'VE COME OVER 0064 #



"My body turns and yearns for a sleep
That will never come
It's never over,
My kingdom for a kiss upon her shoulder
It's never over, all my riches for her smiles
when I slept so soft against her...
It's never over,
All my blood for the sweetness of her laughter
It's never over, she is the tear
That hangs inside my soul forever"


Jeff Buckley não foi só um dos caras mais charmosos a empunhar uma guitarra, ele era também dono de uma voz capaz de expressar um mundo de sentimentos em frases simples e demolidoras. Um outro mundo, o dos pré-conceitos musicais, caía quando ele abria sua boca e seu peito. Queria eu ter escrito "Lover you shoud've come over", e mesmo que o fizesse ainda não teria a capacidade de interpretá-la na intensidade exata. "Meu reino por um beijo no ombro dela. Todas as minhas riquezas pelo sorriso dela, quando durmo tão leve contra ela. Todo meu sangue pela delicadeza da risada dela...".

Assista aqui a magnífica interpretação desta canção.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 1:09:56 PM


.atrapalhe o autor:
Junho 11, 2006
# TEXTO CORRIDO 0063 #

Ponto de partida. Acordo todo amarrotado. Dormi com as mesmas roupas com que perambulei pela madrugada. Perambulei por becos escuros, calçadas imundas, beijei a sarjeta, mergulhando em poças e mais poças de água barrenta para me desencontrar. Agora cá estou eu com estas roupas imundas e amarrotadas da noite mal dormida. Se é que eu dormi. Estava era absorto em tamanho pensamento vago, que meu olhar perdido no teto escuro era como o sono. Como o sono d'um diabo. E meu café da manhã será íra e fogo. Enxofre espaca pelo bule feito fumaça. Café preto e forte, denso como petroleo iraquiano. Roupas amarrotadas e sujas fedendo a urina de cão, quem sabe rato. Lavar o rosto. Fundas olheiras num rosto imberbe. Os pêlos recobrem um rosto desconhecido. Fazer a barba, buscar o que há além. Mão e navalha sangram-me o rosto num descuidado movimento. A primeira gota de sangue a se misturar ao fio d'água mancha o líquido puro de um vermelho que começa escuro, se diluiu e some pelo ralo. Logo é tanto sangue que me desce a face que o fio d'água é pouco. Estancar. Primeiro pressiono o papel higiênico. Aguardo paciente, vou trocando os tufos de papel. Tão logo me canso de sangrar. Uma camada de sangue grossa como lodo protege o corte. Fundas olheiras ainda me encaram no espelho, mas já estou na mesa da cozinha. Enxo a xícara de petroleo até esborrar. No primeiro gole queimo a língua e a garganta. Mastigo e quase me engasga o pó. O segundo gole e os que se sucedem não fazem diferença. Tudo o que há dentro mim jaz putrido. Não há nada capaz de comprometer ainda mais os meus bofes. Sento na sala de cortinas negras, bem fechadas, sem saber se é dia ou noite. Coloco o Piazzolla na vitrola e deixo o moderato tomar conta de todo o ambiente. Acendo um e aspiro fundo, fundo até sentir minha garganta em chamas. Não sinto nada. Não há nada dentro de mim. Nem sentimentos ou "alma". Me foi tirado isto, ou qualquer coisa que havia antes, se um dia houve. Estou aqui, fazendo de tudo para me desencontrar. Para não ser eu. Para não sentir. Tento em vão. Mergulho na merda em vão. Nada que eu faça vai piorar ou mudar isto. Estou morto e não sei.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 11:50:03 PM


.atrapalhe o autor:
Junho 5, 2006
# A LIRA DOS VNTE ANOS 0062 #

Só nos damos conta de que os primeiros 20 anos chegaram quando ele, a entidade personificada dos 20 anos, nos dá um tapinha nas costas. Atitude esta que carrega um misto de camaradagem e um outro tanto de "acorda pra vida compadre". Pois é. Você mal abandonou os ares da infância e os hábitos de uma adolescência controvérsia e está ali, parado sobre os seus tênis surrados, contemplando a si mesmo surpreso: 20 anos!
Primeiro você fica admirado consigo mesmo:

- Poxa... 20 anos... Quem diria.

Em seguida a admiração dá lugar ao horror:

- Mas 20 anos? Eu não estou pronto! Mal sei amarrar meus sapatos, minha faculdade está enrolada, meu emprego não me agrada, meus textos são mal-acabados, estou gordo, feio, preto, pobre, comunista...

20 anos e você percebe que a sua vida se resume a algumas obrigações mal cumpridas e várias noitadas em bares atrás de distração e um bom bate-papo:

- Você assistiu ao último Godard?

- Toda aquela contestação dos valores estéticos me comoveu...

Quem não se sente assim? Quem chega aos 20 com o jogo ganho? As perguntas vêm e de repente o tapinha nas costas lembra mais um empurrão para o abismo. O que o mundo me guarda após os 20? Onde vou chegar com toda essa cerveja e Marx? Existe vida inteligente em nossos umbigos?

Os primeiros 20 anos caem sobre nossas cabeças como a pedra gigante que nos acostumamos a ver esmagando o pobre coiote. Ela vem lá de longe, enquanto assistimos sua chegada sem poder fazer nada, catatônicos. Mas há de existir vantagem em crescer, em deixar pra trás todos os excessos adolescentes (se bem que muitos insistem nestes mesmo após os 30...), toda aquela insegurança. Será mesmo? Ou você acha que esse cara na sua frente segurando um copo de vodka, enquanto realiza conjecturas a cerca do taoísmo com Moby e a crise do gás boliviano é realmente seguro, porque lê Bravo!, tem um tênis Pulma lindo de 500 reais e dança naquele clube onde vão todos os descolados de sampa?

Os 20 anos estão aí, dando um tapinha nas costas e lembrando "acorda malandro, é cada um por si e ninguém pensa em você mais". Ou você cresce pelas próprias pernas ou vira montaria, muleta pra quem está ao seu redor esperando tal atitude sua, tal comentário seu, porque todo mundo sabe o que é melhor pra sua vida, menos você. Afinal, em tal lugar fulano anda assim, fala assado e é o máximo. Os 20 anos chegaram e você vê ao seu redor uma enorme concentração de pessoas dispostas a edificar um grande nada, condensando suas vaidades, com mil pensamento pré-concebidos, com tudo que a cultura pop oferece, que o hype cospe em cima.

Mas você está ali ainda estarrecido sobre os próprios sapatos. Sabe que muita coisa importante se foi e que por mais difícil que seja daqui pra frente, você está recebendo a chance de se destacar, de se impor e mostrar quem você é de verdade. Aposte alto e mostre suas cartas, porque quando os próximos 20 anos chegarem você irá poder olhar pra trás e deixar que um sorriso sincero tome conta do seu rosto. Estes 20 foram ótimos, mas os próximos podem ser ainda melhores.
Escritos de um desconhecido autor publicado às 5:28:49 PM


.atrapalhe o autor:
Maio 23, 2006
# DO CORPO E D'ALMA 0061 #

Como não sentir nada ao ver aquele rosto?
Depois de tanto tempo e tantas impressões, sei que a minha boca foi feita para beijar aquela boca. Se fosse possível prever que uma admiração platônica se transformaria na amálgama de dois corpos... Ah! Sorte de quem vê além.

Me joguei. Apostei alto. Morri, renasci, morri de novo e morri tantas outras vezes e vou continuar morrendo e renascendo para tocar Seu corpo e invadir Sua vida. Amor que vem na surdina, na ponta do pé, de soslaio e explode em gozo. Regozijo.

Ela foi feita pra me desviar do caminho, porque meu lugar é ao Seu lado, mesmo quando Ela nega. Nega pra poder quebrar a cara e nega de novo pra dar a outra face. E nega a negação pra não negar a pura essência, a existência inexata e necessária.

Conheço todos os vacilos e o coração aflito, não porque fui confiado, mas sim, porque soube roubar a chave da Sua "alma" , que se entrega num lance rápido de olhos, trejeitos e no momento em que sem se fazer notar revela toda a beleza que não se revela nunca. A alma desnuda num lance de mãos: arruma o cabelo e revela a nuca. Prende o cabelo com olhar de desdém, de quem não faz idéia da sensualidade inusitada.

O corpo claro e morno. Minha casa, minha morada... Estar Contigo ao léu. Nega até a morte e resiste o corpo alvo e rosado. Seco e molhado. Roçam-me os pêlos, os bicos do peito, a boca macia, o beijo perfeito. Inexato.

Sei que não existo, não hesito, não resisto. Co-existo com a alma e o corpo D'ela. (12/2004)

"Podem voar mundos, morrer astros
Que tu és como um deus: principio e fim."


# O MEU "EU" DESENHISTA #

IDIOTECA 2: PELO BURACO-NEGRO DO NANKIN
Escritos de um desconhecido autor publicado às 10:46:01 AM